O El Niño pode atingir alta intensidade no segundo semestre de 2026. Conheça melhor o fenômeno climático e saiba como ele impacta a agricultura brasileira.
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o fenômeno climático El Niño deve manter sua influência nas condições climáticas globais e pode se intensificar ao longo do segundo semestre de 2026. Ainda conforme o instituto, o evento deve atingir intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão.
Em um cenário como esse, o monitoramento da atividade agrícola e das condições climáticas é essencial não só para quem produz, mas também para quem investe e concede crédito – buscando reduzir riscos e tomar decisões com base em inteligência analítica.
Pensando nisso, a Serasa Experian reuniu neste artigo as respostas para as principais dúvidas sobre o El Niño, e como esse fenômeno climático impacta o agronegócio brasileiro.
Neste conteúdo você vai ler (Clique no conteúdo para seguir)
- O que são os fenômenos climáticos El Niño e La Niña?
- Qual é a causa do El Niño?
- O El Niño ocorre em que período do ano?
- Quais são as principais diferenças entre El Niño e La Niña?
- Como o El Niño influencia as condições climáticas no Brasil em 2026?
- Projeção de efeitos do El Niño no agronegócio em 2026
- El Niño e suas consequências na agricultura brasileira
- Como o El Niño pode afetar as principais atividades agrícolas?
- Como reduzir os impactos do El Niño na produção agrícola?
- Como o monitoramento ajuda a reduzir riscos no crédito rural?
O que são os fenômenos climáticos El Niño e La Niña?
Antes de esclarecer o que é El Niño, precisamos entender que este é o nome de uma das variações que ocorre nas temperaturas das águas superficiais do oceano Pacífico Equatorial.
O El Niño e o La Niña são partes de um mesmo fenômeno acoplado (atmosférico-oceânico), denominado El Niño-Oscilação Sul (ENOS), que ocorre no oceano Pacífico Equatorial (e na atmosfera adjacente).
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) explica que chamamos de El Niño a fase do ENOS em que as águas do oceano Pacífico Equatorial estão mais quentes do que a média histórica. Quando as mesmas águas apresentam resfriamento, mantendo-se abaixo da média histórica, a fase do ENOS é identificada como La Niña.
Em ambos os casos, a mudança na temperatura do oceano Pacífico Equatorial influencia as condições climáticas ao redor de todo o globo, afetando principalmente:
- padrões de circulação atmosférica;
- transporte de umidade;
- temperatura;
- precipitação.
Qual é a causa do El Niño?
O El Niño e o La Niña não têm uma causa única e completamente conhecida. Ambos fazem parte do ENOS, um fenômeno climático natural decorrente da interação entre o oceano e a atmosfera no oceano Pacífico Equatorial. Os cientistas conhecem os mecanismos envolvidos em seu desenvolvimento, mas ainda não conseguem determinar exatamente o que desencadeia cada novo episódio.
Além disso, a World Meteorological Organization (WMO) destaca que o aquecimento global não causa o El Niño nem o La Niña, embora possa intensificar as alterações nas condições climáticas provocadas por esses fenômenos.
O El Niño ocorre em que período do ano?
Segundo a WMO, o El Niño ocorre a cada dois a sete anos e dura cerca de nove a doze meses. Geralmente o fenômeno começa a se desenvolver entre março e junho e atinge sua intensidade máxima entre novembro e fevereiro.
A influência dos eventos nas temperaturas globais é percebida com mais facilidade no segundo ano após o desenvolvimento do El Niño ou do La Niña. A WMO ressalta que os efeitos variam dependendo da intensidade, duração e época do ano em que o fenômeno se desenvolve.
Dentro do período sob influência do El Niño, nem todas as regiões do mundo são afetadas. Além disso, os efeitos do fenômeno podem ser diferentes mesmo dentro de uma mesma região.
A previsão desses eventos é feita com base em observações de temperatura da superfície do mar, padrões de vento e outros fatores climáticos, mas prever com precisão a intensidade e a duração desses fenômenos ainda é um desafio para os meteorologistas.
Quais são as principais diferenças entre El Niño e La Niña?
Você já deve ter se deparado com o noticiário abordando este fenômeno climático ao longo dos anos. Ora as reportagens falam de El Niño, em alguns momentos as novidades são sobre La Niña.
Mas você sabe especificar o que são esses eventos? Conhece as diferenças entre El Niño e La Niña?
Veja no quadro as principais diferenças entre a influência do El Niño e do La Niña no Brasil, conforme informações dos principais órgãos especializados no assunto, como o INPE, o INMET, e a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA):
| Aspecto | El Niño | El Niña |
| Característica principal | Aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico Equatorial. | Resfriamento anormal das águas do oceano Pacífico Equatorial. |
| Alterações | Tendência de aumento de chuvas no Sul e redução de chuvas no Norte e Nordeste. | Tendência de redução de chuvas no Sul e aumento de chuvas no Norte e Nordeste. |
| Impactos na agricultura | Excessos de chuva, enchentes, doenças fúngicas e problemas operacionais nas lavouras. | Estiagem, déficit hídrico, prejuízos ao desenvolvimento dos cultivos e lavouras improdutivas. |
| Origem do nome | Referência ao Menino Jesus, devido ao aquecimento das águas próximo ao Natal na costa do Peru. | Significa "a menina" em espanhol e recebeu esse nome por representar o fenômeno oposto ao El Niño. |
Fontes: INPE, INMET e NOAA.
Como o El Niño influencia as condições climáticas no Brasil em 2026?
De acordo com o último boletim “Painel El Niño 2026-2027”, do INMET, a probabilidade de permanência do fenômeno climático até pelo menos o início de 2027 é superior a 90%.
As projeções do instituto também revelam que há alta probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte - quando as oscilações na temperatura da superfície do oceano Pacífico Equatorial ficam acima de 2,0°C, entre a primavera e o verão de 2026.
Neste cenário, para os meses de julho, agosto e setembro, a previsão climática do INMET indica:
- chuvas acima da média em áreas da Região Sul;
- chuvas abaixo da média no centro-norte do Brasil;
- alta probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre;
- cenário propício para a ocorrência de incêndios florestais.
Projeção de efeitos do El Niño no agronegócio em 2026
Saiba quais podem ser os efeitos do El Niño no agronegócio nas cinco regiões do país, conforme as previsões climáticas do INMET para os meses de julho, agosto e setembro:
- Região Norte
Chuvas abaixo da média e temperaturas acima do normal. Redução da umidade do solo, aumentando o risco de deficiência hídrica. Pastagens, culturas perenes e agricultura familiar podem sofrer prejuízos. - Região Nordeste
Menor volume de chuvas e altas temperaturas. A colheita do feijão de terceira safra pode ser beneficiada. Pastagens, pecuária e cultivos em desenvolvimento podem ser prejudicados pela redução na disponibilidade hídrica. - Região Centro-Oeste
A alta temperatura pode intensificar o déficit hídrico no final do período seco, prejudicando as pastagens e os preparos para a próxima safra. Condições favoráveis para a colheita do milho segunda safra, algodão e cana-de-açúcar. - Região Sudeste
Chuvas podem beneficiar as culturas de inverno. A colheita do café pode ser favorecida. As altas temperaturas devem ser monitoradas com atenção para evitar prejuízos com o aumento de doenças e aceleração do ciclo das culturas. - Região Sul
Baixo risco de geadas tardias por conta das altas temperaturas. Maior volume de chuvas, que podem favorecer as culturas de inverno. O excesso de umidade pode aumentar a incidência de doenças.
El Niño e suas consequências na agricultura brasileira
As consequências do El Niño na agricultura variam conforme a região, a época do ano e as culturas agrícolas. Ao modificar os padrões de chuva e temperatura, o fenômeno pode afetar a produtividade das lavouras, a disponibilidade de água, o planejamento da safra e até a dinâmica do mercado agrícola.
A seguir, conheça algumas das principais consequências do El Niño na agricultura brasileira.
Secas, estiagens e aumento do risco de incêndios
Em algumas regiões do Brasil, o El Niño pode favorecer períodos prolongados de estiagem e seca.
Entre as principais consequências desse cenário estão:
- redução da produtividade agrícola;
- quebras de safra em casos de estiagem prolongada;
- comprometimento do desenvolvimento de culturas sensíveis à falta de água;
- aumento do risco de incêndios florestais, especialmente na Amazônia e no Cerrado.
Além dos prejuízos ambientais e da perda de biodiversidade, os incêndios podem causar danos às áreas produtivas, elevar os custos de recuperação das propriedades e gerar prejuízos econômicos para produtores rurais e toda a cadeia do agronegócio.
Prejuízos causados pelo excesso de chuvas
Em algumas regiões, o El Niño pode provocar chuvas acima da média, afetando não apenas o desenvolvimento das culturas, mas também as operações agrícolas.
Entre os principais prejuízos causados pelo excesso de chuvas estão:
- dificuldade no tráfego de máquinas e equipamentos nas lavouras;
- atraso no plantio, na colheita e em outras operações agrícolas;
- comprometimento da aplicação de defensivos e fertilizantes;
- embuchamento de colhedoras e aumento das perdas operacionais;
- redução da qualidade dos grãos e elevação dos custos de produção.
Como consequência, os produtores podem enfrentar atrasos no cronograma da safra, maior necessidade de intervenções no campo e aumento dos custos operacionais, comprometendo a eficiência e a rentabilidade da atividade agrícola.
Flutuação nos preços das commodities
As alterações na produção agrícola provocadas pelo El Niño também podem influenciar o mercado de commodities, afetando o planejamento financeiro de produtores e empresas do setor.
Nesse contexto, os principais reflexos do El Niño são:
- variações nos preços de commodities agrícolas;
- mudanças na rentabilidade das atividades rurais;
- aumento da incerteza na avaliação de investimentos e operações de crédito.
Por isso, acompanhar os efeitos do fenômeno é fundamental para toda a cadeia do agronegócio. O monitoramento das condições climáticas e do comportamento do mercado contribui para decisões mais assertivas, permitindo que produtores, cooperativas, instituições financeiras e demais agentes do setor se preparem melhor para períodos de maior volatilidade.
Como o El Niño pode afetar as principais atividades agrícolas?
Considerando as projeções sobre o fenômeno climático El Niño, os agricultores precisam se preparar para evitar perdas que podem ser causadas por condições climáticas irregulares nos próximos meses.
Veja a seguir como o El Niño pode afetar lavouras de soja, milho, algodão, cana-de-açúcar, hortifruti, além do café e da pecuária.
Como a soja pode ser afetada pelo El Niño?
Em regiões que enfrentam períodos de seca, a planta de soja pode abortar flores e vagens para conseguir se nutrir e continuar seu ciclo. Após um longo período de estiagem, além de produzir menos, a lavoura pode originar grãos menores e mais leves.
Por outro lado, em áreas com previsão de excesso de chuvas entre o enchimento dos grãos e a maturação das vagens, pode ocorrer a germinação dos grãos ainda dentro das vagens, a abertura das vagens, atraso na colheita da soja, embuchamento de máquinas e uma série de problemas operacionais.
Como o El Niño pode afetar a produção de milho?
A seca pode reduzir a capacidade fotossintética das plantas de milho na fase vegetativa, prejudicando os estágios seguintes da lavoura. O déficit hídrico no florescimento pode causar o aborto das espiguetas, e posteriormente, afetar o enchimento de grãos.
A chuva em excesso também pode afetar a fotossíntese das plantas de milho, por conta do céu nublado, além de criar um ambiente favorável para doenças.
A colheita do milho também é muito prejudicada com chuva fora de época. Cenários como esse podem inviabilizar o uso de maquinários e afetar a qualidade do grão.
Como o El Niño pode prejudicar o algodão?
O algodão é uma cultura que precisa receber a quantidade certa de água em cada etapa de seu desenvolvimento. Por esse motivo, o El Niño representa um grande risco para a cotonicultura dependendo da região em que a fibra está sendo produzida.
Sob estresse hídrico, a planta de algodão pode produzir fibras com menor espessura e resistência. Ao se desenvolver em períodos com muitas chuvas, as estruturas reprodutivas do baixeiro da planta podem apodrecer por conta da alta umidade e incidência de doenças.
Como a cana-de-açúcar pode ser prejudicada pelo El Niño?
Os impactos do El Niño sobre a cana-de-açúcar tendem a ser reduzidos, especialmente no Centro-Sul do Brasil. O aumento das chuvas favorece a disponibilidade de água no solo, contribuindo para o crescimento dos canaviais e para ganhos de produtividade, principalmente nas safras seguintes.
Por outro lado, o excesso de precipitação pode dificultar as operações de campo. Chuvas frequentes reduzem o ritmo da colheita e da moagem, dificultam a entrada de máquinas nas lavouras e podem comprometer a eficiência operacional das usinas.
Quais as consequências do El Niño no hortifruti?
As consequências do El Niño para o hortifrúti variam conforme a espécie cultivada, a região produtora e a época do cultivo. De modo geral, o excesso de chuvas e de umidade e as altas temperaturas favorecem a ocorrência de doenças, causam danos físicos em frutas e hortaliças mais sensíveis e podem comprometer a qualidade da produção.
No entanto, em regiões afetadas por estiagens, culturas mais dependentes de irrigação podem sofrer com a redução da disponibilidade hídrica, comprometendo o desenvolvimento das plantas e a produtividade.
Como o café pode ser afetado pelo El Niño?
Os efeitos do El Niño sobre a cafeicultura estão relacionados, principalmente, ao calor excessivo e à irregularidade das chuvas. Essas condições podem comprometer fases importantes do ciclo da cultura, como a florada, favorecendo o surgimento de floradas desuniformes, reduzindo o potencial produtivo e afetando a qualidade dos grãos.
Além disso, chuvas fora de época podem atrasar a colheita do café e aumentar a queda de frutos, dificultando as operações no campo.
Quais prejuízos o El Niño pode causar na pecuária?
Em áreas afetadas por estiagens e temperaturas elevadas, a redução do crescimento das forrageiras pode comprometer a alimentação dos animais, diminuir o ganho de peso e afetar a produção de leite. Além disso, o estresse térmico reduz o conforto dos animais, podendo afetar o desempenho produtivo de diferentes cadeias pecuárias.
Já em regiões com excesso de chuvas, o aumento da umidade favorece problemas sanitários na pecuária, dificulta o manejo e pode prejudicar a qualidade das forragens.
Como reduzir os impactos do El Niño na produção agrícola?
Embora não seja possível evitar a ocorrência do El Niño ou do La Niña, é possível reduzir seus impactos por meio de planejamento, monitoramento climático e gestão de riscos. A adoção dessas estratégias permite antecipar cenários, adaptar o manejo das lavouras e tomar decisões mais assertivas diante das oscilações do clima no Brasil.
Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), a mitigação dos riscos deve combinar ações de prevenção em um bom planejamento de safra, incluindo o acompanhamento das previsões climáticas e a adoção de boas práticas agrícolas. A EMBRAPA também recomenda que os agricultores respeitem o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC).
Entre as principais ações recomendadas pela EMBRAPA para reduzir os impactos do El Niño, estão:
- acompanhar previsões climáticas e alertas meteorológicos de fontes oficiais;
- seguir as recomendações do ZARC para cada cultura;
- escalonar o plantio e utilizar cultivares adaptadas às condições da região;
- investir em práticas de conservação do solo, drenagem e plantas de cobertura;
- monitorar continuamente as lavouras para identificar riscos fitossanitários;
- contratar seguro rural como forma de reduzir os impactos financeiros de eventos climáticos extremos.
Como o monitoramento ajuda a reduzir riscos no crédito rural?
Os fenômenos El Niño e La Niña mostram que o risco climático vai muito além da produção agrícola. Ele afeta toda a cadeia do agronegócio — da concessão de crédito à contratação de seguro rural, passando pela indústria de insumos, cooperativas, tradings e exportadores. Nesse cenário, atuar apenas de forma reativa já não é suficiente.
Com inteligência de dados, o risco climático deixa de ser apenas uma incerteza e passa a ser mensurável, monitorável e antecipável. Ao integrar informações climáticas, geoespaciais, produtivas e financeiras, é possível identificar vulnerabilidades antes que elas se transformem em perdas e tomar decisões mais estratégicas.
Complementando informações como as fornecidas pelo ZARC, as tecnologias de inteligência analítica da Serasa Experian oferecem uma visão integrada do território e da operação agrícola, permitindo:
- monitoramento contínuo de áreas agrícolas via satélite;
- visão territorial detalhada das propriedades, inclusive em nível intra-área;
- integração de dados climáticos, produtivos e financeiros;
- análises que apoiam a concessão de crédito, a subscrição de seguros e a gestão de carteiras;
- mais previsibilidade para identificar vulnerabilidades e antecipar riscos.
Dessa forma, bancos, seguradoras, cooperativas, indústrias de insumos, tradings e demais empresas do agronegócio conseguem evoluir de uma atuação reativa para uma gestão mais preditiva, reduzindo perdas, fortalecendo suas carteiras e aumentando a segurança na tomada de decisão.