Por Mariane Vitória
Product Marketing Manager para o Agro na Serasa Experian, Doutora em Agronegócio com foco em estratégia de mercado e ESG pela UFG, atua na intersecção entre tecnologia e conformidade no setor.
A assinatura do acordo de livre comércio com a União Europeia, consolidada em janeiro deste ano, após 26 anos de negociações, redefine a inserção estratégica do agronegócio brasileiro no mercado global. Mais do que uma abertura comercial, o tratado estabelece um novo patamar de exigência técnica e normativa.
Se, por um lado, tarifas serão reduzidas ou eliminadas para cadeias como café, frutas e óleos vegetais, e cotas ampliadas para proteínas animais, por outro, o acesso a esse novo espaço econômico passa a depender de um ativo intangível decisivo: a capacidade de provar conformidade. A competitividade financeira deixa de ser apenas preço e produtividade. Ela passa a incluir rastreabilidade, governança e evidência auditável, o que podemos chamar de um verdadeiro “passaporte verde” para exportação. Essa transição cria uma nova fronteira estratégica: a integração entre tecnologia, dados e governança territorial.
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O cenário de oportunidades e as salvaguardas
Os indicadores de mercado sustentam um otimismo cauteloso. A União Europeia consolidou-se, em 2025, como o segundo principal destino das exportações do agronegócio brasileiro, absorvendo 14,9% do total exportado (US$ 25,2 bilhões), além de figurar como o segundo maior fornecedor, respondendo por 19,5% das importações do setor (US$ 3,9 bilhões).
O tratado traz fôlego para cadeias que enfrentaram tensões com o acirramento das tarifas americanas e restrições na Ásia no último ano. A eliminação do imposto de 9% sobre o café solúvel e a criação de uma cota adicional de 180 mil toneladas para carne de aves são marcos de competitividade. Entretanto, o acesso a esses benefícios exige regras de produção simétricas às europeias. As salvaguardas aprovadas pela UE permitem suspender concessões tarifárias caso identifiquem prejuízo aos produtores locais ou descumprimento de padrões sustentáveis, tornando a gestão de risco baseada em dados a principal blindagem do exportador.
Da intencionalidade à evidência auditável
Neste contexto, o conceito de "produção livre de desmatamento" exige provas rastreáveis e auditáveis em tempo real. A conformidade transformou-se em uma barreira técnica; sem evidências irrefutáveis, o fluxo comercial é interrompido. Essa exigência caminha pari passu com regulamentações rigorosas já em curso, como a EUDR (European Union Deforestation Regulation), que demanda transparência total sobre a origem dos produtos.
É nesta lacuna entre a prática no campo e a exigência do comprador que a inteligência geoespacial se torna indispensável. A atuação da Serasa Experian endereça essa necessidade ao converter dados complexos em segurança jurídica. A capacidade de cruzar o perímetro georreferenciado de áreas produtivas com bases oficiais e monitoramento satelital permite uma due diligence rigorosa antes da concessão do crédito ou da originação da safra.
Monitoramento contínuo como estratégia de defesa
A dinâmica das exportações sob o novo acordo exigirá transparência ininterrupta. A conformidade pontual é insuficiente; a sustentabilidade deve ser garantida ao longo de todo o ciclo produtivo. O monitoramento contínuo via imagens satelitais, o cruzamento com bases oficiais e dados exclusivos da Serasa Experian permitem identificar alterações no uso da terra, riscos socioambientais e inconsistências cadastrais antes que se convertam em passivos comerciais.
Esse processo resulta em relatórios estruturados com georreferência, data e fontes oficiais. Em um cenário onde a UE pode acelerar investigações sobre produtos sensíveis, esses dados constituem a defesa técnica necessária em auditorias de compliance. Nesse cenário, a inteligência geoespacial deixa de ser diferencial e passa a ser infraestrutura estratégica.
O futuro sob a ótica da governança
O acordo Mercosul–UE sinaliza uma transformação estrutural: escala produtiva sem governança de dados será insuficiente. O agro brasileiro entra em uma fase em que crédito, rastreabilidade, compliance e monitoramento ambiental se integram à lógica de mercado internacional.
Competir nos mercados mais exigentes dependerá da capacidade de provar com dados a integridade de cada hectare, a regularidade de cada operação e a sustentabilidade de cada cadeia. O futuro da exportação brasileira será definido não apenas no campo, mas na qualidade da informação que o acompanha. Ao integrar inteligência geoespacial e rigor técnico, o setor assegura seu espaço nos mercados mais globais e consolida sua posição como liderança em autoridade socioambiental.