Como toda inovação, o Open Banking também causa dúvidas e receios, mas a experiência internacional mostra que ele pode ser benéfico para todos. Entenda, no 4º texto da série especial sobre Open Banking, os grandes mitos sobre o tema.

Em 2021, o Brasil entrou de vez na era do Open Banking. Com o direcionamento do Banco Central (Bacen), as instituições participantes passarão a compartilhar entre si as informações de seus clientes mediante consentimento deles. Um dos objetivos é aumentar a competitividade do sistema financeiro, permitindo não apenas uma maior oferta de produtos e serviços, mas também uma maior aderência ao perfil e às necessidades de cada cliente.

Para orientar os players, no final do ano passado, por exemplo, o Banco Central compartilhou um documento listando as 1.065 instituições que terão participação obrigatória no Open Banking. De acordo com a regulamentação, instituições enquadradas pelo Bacen nos segmentos S1 (com porte igual ao superior a 10% do PIB ou que tenham atividade internacional relevante) e S2 (instituições cujo porte é acima de 1% do PIB) têm obrigatoriedade em aderir ao novo modelo.

O que está em disputa agora é um mercado altamente robusto, composto por 175,4 milhões de brasileiros que mantêm algum relacionamento com o sistema bancário, segundo o Banco Central. Esse alto número de pessoas foi impulsionado pela acelerada bancarização de 9,8 milhões de indivíduos no ano passado, na esteira do pagamento do auxílio emergencial. Para se ter uma ideia, esse contingente de bancarizados é maior do que a população total de países como a Rússia, com seus 146,1 milhões de habitantes, e o México, com 126 milhões.

Mercado potencial

Mesmo quando se considera a porcentagem de bancarizados em relação à população total, o Brasil já não está na lanterninha do ranking. Entre 2011 e 2020, esse número subiu de 55,9% para 82,7%, segundo dados do Banco Central. Como comparação, outro estudo, o Global Findex Database, publicado em 2017 pelo Banco Mundial, mostra que 80,2% da população da China possui algum vínculo bancário; na Índia, 79,9%; na Rússia, são 75,7%. A África do Sul aparece com 69,2%. Para a pesquisa, bancarizado é todo indivíduo que possuir uma conta-corrente, poupança ou conta digital numa instituição financeira reconhecida em seu país.

Agora, o mercado se prepara para o início da segunda fase da implantação do Open Banking brasileiro. A partir de 15 de julho, os clientes poderão solicitar aos bancos o compartilhamento de suas informações financeiras, como dados cadastrais, movimentações em suas contas, cartões e demais produtos de crédito contratados.

É natural que a novidade cause dúvidas em todos os envolvidos – dos clientes aos bancos, passando por fintechs e outros players que acompanham as mudanças.

Por isso, listamos os três mitos mais comuns que costumam ser compartilhados sobre o tema. Confira:

1. O Open Banking prejudica os bancos (ou, no melhor dos casos, não gera valor)

É claro que a competição aumentará, e alguns saberão aproveitar as oportunidades melhor que outros, mas o Open Banking está longe de arruinar o negócio das grandes instituições. Basta olhar para o Reino Unido, o pioneiro na adoção do sistema bancário aberto. Desde que os britânicos iniciaram sua implantação, em 2018, os maiores conglomerados financeiros mudaram substancialmente de opinião.

Em setembro de 2020, uma pesquisa da Insider Intelligence mostrou que 73% das instituições do Reino Unido tinham uma visão positiva do Open Banking, ante 48% em 2019. Além disso, 67% delas consideravam o novo sistema como uma oportunidade de negócios, e 33% estavam prospectando fintechs para possíveis parcerias.

Foi o que fez o HSBC, o primeiro grande banco daquele país a lançar um aplicativo com base no Open Banking, em maio de 2018. Em parceria com fintechs, a instituição criou o Connected Money, que permite aos usuários acessar, por meio de um único app, as informações de todos os bancos com que se relacionam, como saldos, investimentos e limites de crédito. Em apenas um ano, o programa foi baixado por 300 mil britânicos. O resultado encorajou outros gigantes britânicos, como o Lloyds Bank e o Barclays, a lançarem soluções semelhantes.

Mas ajudar os clientes a organizar sua vida financeira não foi tudo. O HSBC também está ampliando sua carteira de crédito. Em 2019, durante um evento em Londres, Hetal Popat, principal executivo de Open Banking do HSBC, explicou que utilizar os dados compartilhados por outras instituições e ficou mais rápido, tornando-se menos arriscado aprovar crédito para alguém.

“Vimos um aumento significativo da taxa de aprovação [de crédito] por uma razão óbvia”, afirmou, na ocasião, à revista Computerworld. “Há muitos consumidores que são perfeitamente elegíveis para o crédito, mas dos quais temos poucas informações e, portanto, os bancos dizem não. Agora, com mais dados, podemos dizer que o cliente preenche os critérios e lhe oferecer um empréstimo.”

2. Open Banking é só um outro nome para APIs

É verdade que as APIs (Interfaces de Programação de Aplicação, na sigla em inglês) são uma peça-chave para o Open Banking, mas é um equívoco comum reduzir todo o potencial desse novo sistema a elas. Seria a mesma coisa que reduzir a internet a uma competição de quem faz o melhor site.

Em um artigo para a revista da Associação Americana de Banqueiros (ABA), Chris Zingo, diretor da Finastra, uma empresa de tecnologia para o setor financeiro, afirma que “o Open Banking é uma mudança de paradigma na forma como o ecossistema de serviços financeiros opera. Ele tem o potencial de eliminar a fricção que fintechs, parceiros e clientes enfrentam quando se relacionam com os bancos”.

Isso porque uma API é um software intermediário para que outros programas conversem entre si de modo seguro e rápido. As APIs existem desde os anos 60 e são mais comuns do que se imagina. Elas são utilizadas em situações tão diversas, quanto redes sociais e aplicativos de saúde, passando por sistemas de gestão industrial e telecomunicações.

No Open Banking, as APIs permitem que os grandes bancos compartilhem as informações financeiras de seus clientes (desde que consentidos por estes) com terceiros, como fintechs, outros bancos e parceiros, de modo padronizado, seguro e rápido.

Os grandes vencedores da era do Open Banking serão os que souberem extrair os melhores insights a partir dessa montanha de dados que se tornarão públicos, criando novos produtos e serviços para os clientes.

Naquele evento de 2019 em Londres, mencionado acima, Popat, do HSBC, definiu o Open Banking do seguinte modo: “Eu diria, na verdade, que é uma questão cultural. Todos falamos sobre inovação e parcerias, mas, no ambiente do Open Banking, tudo o que o HSBC tem feito no Reino Unido e na Europa tem a ver com parcerias”.

3. Open Banking pode ser adotado por todas as empresas e qualquer uma delas pode ter os dados financeiros do consumidor

Isso não é verdade. Pelo contrário: somente instituições reguladas pelo Banco Central podem entrar no jogo. Além disso, os dados só serão compartilhados com as instituições caso o cliente aprove.

Para tornar mais claro, vamos aos fatos. No primeiro ponto, a respeito da participação das instituições, ao final de 2020, o Banco Central do Brasil compartilhou as diretrizes sobre o assunto. De acordo com o órgão, apenas financeiras que funcionam sob algum modelo de regulação oficial do Bacen podem integrar o novo sistema.

No total, 1.065 instituições terão a participação obrigatória. Para classificar as que não poderiam “escapar” do Open Banking, o Banco Central dividiu as companhias em duas categorias. As que possuem porte igual ou superior a 10% do PIB – ou atividade internacional relevante – entram como S1. Já as companhias que detêm porte entre 1% e 10% do PIB também devem aderir ao programa, na categoria S2.

As demais entidades financeiras reguladas pelo Banco Central podem aderir voluntariamente ao Open Banking – como, por exemplo, instituições de pagamentos.

Sobre o acesso às informações financeiras do consumidor, é uma via de mão dupla. Isso porque empresas que não são reguladas pelo Bacen não terão acesso aos dados do Open Banking como controlador de dados. A única maneira de uma empresa não listada estar no escopo do Open Banking é se ela figurar como parceira de uma participante.

Além disso, nenhuma informação poderá ser acessada e/ou compartilhada se o cliente não autorizar. Caso o consumidor permita, o prazo para que essa informação esteja disponível é de, no máximo, 12 meses. Após esse período, o usuário deverá renovar sua aprovação para que a instituição volte a acessar os dados.

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