Revista Tecnologia de Crédito

Revista Tecnologia de Crédito

Testes de Estresse como Ferramenta Básica da Gestão Prudente do Risco
Edição 69

A crise financeira tem atraído a atenção mundial e certamente ainda o fará por algum tempo. O ano passado foi caótico para os mercados financeiros e a grande incerteza é uma das características mais marcante. Esses recentes acontecimentos no mercado destacaram a importância dos testes de estresse em bancos e outras instituições financeiras. O violento impacto da crise levou profissionais e supervisores do setor a reavaliar seus procedimentos de teste de estresse para determinar se eram adequados no período que precedeu a crise e suficientes para lidar com situações em rápida transformação. Neste artigo, trataremos de alguns conceitos e aplicações e de determinadas melhorias — como os testes de estresse reversos — para demonstrar que testes de estresse não são apenas um instrumento exigido pelos principais órgãos reguladores internacionais, mas, o que é mais importante, uma ferramenta fundamental para a gestão prudente do risco.

 

Introdução

Inicialmente, explicaremos porque os testes de estresse se tornaram assunto prioritário no setor financeiro e, concomitantemente discutiremos alguns dos fatos que podem ter originado as atuais condições do mercado.

Antes do início da crise houve um longo período de grande crescimento econômico e incremento da poupança. Esse alto nível de poupança, combinado com as aparentes preferências por ativos (como Letras do Tesouro Americano) levaram a um período prolongado de taxas de juros livres de risco reais muito baixas nas economias desenvolvidas. As instituições financeiras gozavam de acesso fácil e barato a fundos e promoviam uma busca intermitente por fontes alternativas de alto rendimento. Esses dois fatores podem ter levado, entre outras coisas, a uma explosão da tomada de empréstimos no varejo no mundo desenvolvido, inclusive uma rápida expansão do crédito hipotecário, frequentemente por meio de padrões de concessão perigosamente tolerantes, inclusive aos chamados tomadores subprime nos Estados Unidos. A inovação financeira em produtos estruturados, especialmente o desenvolvimento da securitização, com seus mercados, e o setor bancário virtual — como sociedades e veículos específicos — facilitaram o desenvolvimento daquele que ficou conhecido como modelo ‘originar e distribuir’. Usando esses produtos estruturados, que poderiam representar um alívio de capital ao vende riscos inerentes a investidores, as instituições
poderiam emprestar mais a contrapartes de risco mais elevado. Entretanto, a complexidade de alguns desses produtos, a busca incessante das instituições por rendimentos e a resultante falta de transparência quanto a quem estaria exposto a quais riscos, acabaram por levar a um aumento da dificuldade de avaliação dos ativos e a incertezas ainda mais generalizadas a respeito da qualidade de crédito das contrapartes financeiras.

A crise sub-prime dos Estados Unidos desencadeou rapidamente uma reavaliação mais ampla do risco, inclusive uma notável perturbação dos mercados de créditos estruturados. A falta de liquidez e a reprecificação do risco de crédito levaram à desalavancagem de instituições e poderiam ter exposto relações causais até então sujeitas à avaliação insuficiente. As instituições viram-se expostas a diversos fatores que se reforçavam mutuamente, como os efeitos da contração crônica da oferta de crédito e da liquidez; a erosão de seu capital por causa do colapso dos preços dos ativos; o aumento dos requisitos de capital e liquidez devido à necessidade de manter riscos no balanço para sustentar veículos extra-balanço; e efeitos de feedback de rebaixamentos de ratings de crédito (por exemplo, gatilhos de garantias reais associados a rebaixamentos).

Em meados de 2007, os mercados de securitização e outros canais de financiamento do atacado haviam diminuído significativamente, levando muitos bancos a apresentar problemas de liquidez. Os spreads interbancários aumentaram drasticamente à medida que os bancos protegiam seu caixa e relutavam em emprestar uns aos outros. Havia um considerável grau de incerteza quanto ao valor de ativos deficientes e ilíquidos e quanto a quais instituições os detinham.

Para manter sua reputação, muitos bancos recolocaram em seus balanços instrumentos anteriormente transferidos para SFEs. À medida que progredia o ano, os bancos foram forçados a dar baixa de muitas de suas exposições em títulos hipotecários. Essas baixas concentraram se, inicialmente, em créditos sub-prime norte-americanos, mas logo atingiram outras categorias de ativos e regiões geográficas. Seguradoras de linha única que prestavam garantias financeiras também se viram sob tensão, à medida que muitas instituições apresentavam aumento significativo das estimativas de perdas e sofriam com medidas deletérias por parte das agências de rating. 

Os desdobramentos posteriores na economia real incluíram rápida queda dos preços dos imóveis residenciais e comerciais e uma contração significativa da atividade econômica em geral. Acima de tudo, a presente crise pode ser encarada como uma série de eventos de risco operacional. Esses recentes acontecimentos destacaram a importância dos testes de estresse em bancos e outras organizações prestadoras de serviços financeiros.

No caso do Brasil, muito embora a economia brasileira esteja bem posicionada para suportar um ambiente global mais difícil, a alta administração não deve negligenciar o exercício dos testes de estresse. Tais testes devem agir, neste caso, como um mecanismo preventivo pelo qual os administradores de risco construam cenários e preparem suas instituições para piores situações.

Analisemos o que ocorre atualmente no Brasil. Por exemplo, o caos financeiro mundial e a desaceleração do crescimento afetaram o País por terem desencadeado saídas de capital, reduzido os preços das commodities, enfraquecido o Real e piorado o panorama econômico. A resistência da economia decorre de uma política monetária prudente, de substanciais reservas internacionais e de um setor público com uma posição líquida positiva em moeda estrangeira. Este último fator implica que uma depreciação do real frente ao dólar irá melhorar a dinâmica da dívida pública, agindo como um estabilizador macro automático.

Acrescente-se a esse cenário uma maior oferta de crédito por parte dos bancos estatais, o apoio do Banco Central à rolagem da dívida estrangeira das empresas e um afrouxamento da política monetária, que ajudarão a atenuar, mas não anular totalmente, o impacto da rápida deterioração das condições
externas sobre o Brasil. Com o congelamento da oferta externa de crédito, as empresas se voltaram para o mercado local para rolar suas dívidas. O Banco Central injetou liquidez no sistema financeiro por meio de transações compromissadas de um mês. A inflação superior ao centro da meta levou a um aperto da política monetária.

O lema das instituições financeiras brasileiras agora deveria ser: ‘estar preparado’ e é exatamente a isso que se refere a gestão de risco. Mesmo em épocas de vacas gordas, ou não tão magras, os testes de estresse devem ser parte integrante das práticas de gestão de risco de todas as instituições financeiras.

 

De sua Importância à Prática Reguladora

Testes de estresse servem para alertar a administração dos bancos sobre resultados inesperados e adversos relacionados a múltiplos riscos e fornecem uma indicação de quanto capital poderá ser necessário para absorver perdas caso ocorram grandes choques. Ademais, os testes de estresse são uma ferramenta complementar em relação a outras abordagens e medidas de gestão de risco. Eles desempenham uma função de particular relevância:

• no fornecimento de uma avaliação prospectiva do risco;

• na superação das limitações dos modelos e dados históricos;

no respaldo a comunicações internas e externas;

• na geração de informações para procedimentos de planejamento de capital e liquidez;

• na geração de informações para estabelecimento da tolerância do banco ao risco; e

• ao facilitar o desenvolvimento de planos de atenuamento de risco ou contingenciais para uma gama de condições de estresse.

Os testes de estresse são de especial importância depois de longos períodos de condições econômicas e financeiras benignas, quando a distância em relação a condições negativas pode levar a uma atitude complacente e ao apreçamento do risco abaixo dos níveis devidos. São, também, ferramentas cruciais de gestão de risco durante períodos de expansão, quando inovações levam a novos produtos que crescem rapidamente e para os quais pouco ou nada há em termos de dados sobre perdas.

Segundo o princípio 1 do segundo pilar do Novo Acordo de Capital da Basiléia, os bancos devem contar com um processo de avaliação de sua adequação geral de capital em relação ao seu perfil de risco e com uma estratégia para manter seus níveis de capital. Devem ser capazes de demonstrar que as metas internas de capital escolhidas são justificadas e condizem com seu perfil geral de risco e seu atual ambiente operacional. Ao avaliar a adequação de capital, a administração dos bancos precisa ter em mente o ponto exato do ciclo de negócios em que o banco está operando. Devem ser realizados testes de estresse rigorosos e prospectivos que identifiquem possíveis eventos ou mudanças das condições do mercado capazes de trazer consequências negativas para o banco. A administração é, evidentemente, a maior responsável por garantir que o banco conte com capital adequado para sustentar seus riscos.

Os agentes de supervisão podem desejar examinar a maneira como foi realizado um teste de estresse. Os resultados dos testes contribuirão, assim, diretamente para a expectativa de que um banco opere acima dos índices mínimos de capital regulador do Pilar 1. Os supervisores irão avaliar se o banco tem capital suficiente para isso. Em caso de déficit, o supervisor irá tomar as medidas apropriadas, que geralmente dizem respeito às exigências de que o banco reduza seus riscos e/ou mantenha capital/reservas adicionais, de tal modo que os recursos de capital existentes cubram as determinações do Pilar 1 mais o resultado de um teste de estresse recalculado.

Os bancos devem ter processos sólidos de teste de estresse em vigor para aplicação no processo de avaliação de sua adequação de capital. Os testes de estresse devem envolver, ainda, a identificação de eventos possíveis ou mudanças futuras das condições econômicas capazes de exercer impacto desfavorável sobre as exposições de crédito da instituição, além de uma avaliação da capacidade da instituição para suportar tais mudanças. Alguns exemplos de cenários que podem ser usados são: (i) quedas de atividade da economia ou de um setor, (ii) eventos do mercado, ou (iii) condições de liquidez reduzida.

O banco deve realizar testes de estresse com as exposições que tenha a suas contrapartes, inclusive testes conjuntos de fatores de risco de mercado e de crédito. Os testes de estresse do risco de contraparte devem levar em conta o risco de concentração (em uma só contraparte ou grupos de contrapartes), o risco de correlação entre riscos de mercado e de crédito (por exemplo, uma contraparte para a qual uma grande mudança do mercado poderia resultar em uma grande exposição, deterioração significativa da qualidade de crédito, ou ambas) e o risco de que a liquidação das posições da contraparte possa deslocar o mercado. Esses testes de estresse devem, também, considerar o impacto de desenvolvimentos do mercado sobre as posições da própria instituição e integrar esse impacto em sua avaliação do risco de contraparte.

Os testes de estresse e com cenários deveriam ser uma parte fundamental do conjunto de ferramentas empregadas pela alta administração das instituições na tomada de decisões integradas de estratégia de negócios, gestão de risco e planejamento de capital.

Recentes acontecimentos registrados no mercado demonstraram a importância da existência de um sistema forte de governança em vigor nas instituições. A alta administração das empresas menos afetadas estabelece, com sucesso, processos abrangentes de avaliação do risco da organização como um todo, em que testes cuidadosos de estresse e cenário representaram um papel importante, permitindo a tomada de decisões mais informadas e oportunas.

Os testes de estresse e cenário são ferramentas importantes para a gestão prudente de risco. Mais especificamente, os testes de estresse podem ser úteis para a tomada de decisão pela alta administração ao:

• permitir melhor formação do perfil de risco da instituição por meio de uma melhor compreensão dos riscos a que está exposta;

• ajudar a fornecer uma avaliação mais prospectiva do risco, complementando outras ferramentas de gestão de risco e ajudando a superar as limitações da dependência de dados históricos;

• auxiliar a avaliação do impacto de eventos extremos capazes de resultar em perdas significativas;

• apoiar a identificação de concentrações de risco entre diversas linhas ou unidades;

• permitir melhor integração de decisões de estratégia de negócios, gestão de risco e planejamento de capital;

• fornecer um arcabouço que respalde as comunicações internas e externas da instituição.

De maneira geral, a necessidade de contar com testes de estresse e cenário robustos e integrados ao processo de tomada de decisão da alta administração tem aumentado nos últimos anos por causa de mudanças dos modelos de negócio das instituições e do crescimento dos produtos estruturados que trazem riscos complexos.

Normalmente, qualquer falha que seja identificada no mercado só é abordada e qualquer benefício líquido dos requisitos reguladores associados só pode ser realizado quando as empresas implementam independentemente os requisitos reguladores aplicáveis.

 

Testes Reversos

Um exercício de teste de estresse reverso exigiria que as instituições considerassem os cenários com maior probabilidade de tornar inviáveis seus atuais modelos de negócio, identificando e avaliando explicitamente tais cenários. Nesse contexto, o modelo de negócio da instituição deve ser presumido inviável
no momento em que a cristalização de riscos faça com que o mercado perca sua confiança nela, levando contrapartes e outros interessados a não mais transacionar com ela ou lhe proporcionar capital.

O objetivo é garantir que as instituições explorem melhor os ‘riscos extremos’ que, em se concretizando, fariam com que contrapartes e investidores perdessem a confiança. Isso deixaria a instituição mais consciente das vulnerabilidades de seu modelo de negócio ao tomar decisões estratégicas, traçar planos de contingência e considerar sistemas de gestão de risco.

Trata-se de um exercício holístico que, além de considerar os riscos enfrentados pela posição de capital de uma instituição, exige que sejam abordados outros riscos relevantes, inclusive o de liquidez. Tal exercício incentivaria as instituições a: explorar melhor os pontos fracos de seu modelo de negócio (inclusive ‘riscos
extremos’); tomar decisões que integrem melhor o planejamento de negócio e de capital; e melhorar seus planos de contingência.

Um objetivo básico deveria ser o de garantir que a empresa sobrevivesse por tempo suficiente, após a concretização de riscos, para que se verificasse uma das condições abaixo:

• o mercado decidir que não há motivos para sua falta de confiança e retomar transações com a instituição;

• a instituição reduzir e reestruturar suas atividades;

• a instituição ser adquirida por outra, ou ter suas atividades transferidas de maneira ordeira; ou

• a instituição passar ao controle do setor público, ou liquidar suas atividades de maneira ordenada.

Sistemas aprimorados de testes de estresse e cenário devem ajudar as instituições a reduzir tanto a probabilidade de quebra quanto o impacto e a majoração de custos a ela inerentes.

 

Aspectos Técnicos

Pelo exposto, todos os bancos que adotem a Abordagem Baseada em Ratings Internos para os fins do Acordo da Basiléia devem realizar testes de estresse sólidos e significativos par avaliar de forma razoavelmente conservadora sua adequação de capital. Mais especificamente, grandes concentrações de risco de crédito deverão ser submetidas a testes de estresse periódicos.

Ademais, os testes de estresse devem ser interpretados no processo interno de adequação de capital (“internal capital adequacy process” – ICCAP), especialmente no que tange a estratégias de gestão de risco para lidar com os resultados dos testes.

O objetivo é assegurar que as instituições financeiras disponham de capital suficiente para atender aos requisitos de capital regulador, mesmo quando sob estresse. Nesse sentido, os bancos devem identificar, dentro do possível e plausível, eventos e mudanças futuras das condições econômicas que possam causar efeitos negativos sobre sua exposição de crédito. Além disso, é necessário avaliar a capacidade do banco de suportar tais acontecimentos desfavoráveis.

No que se refere ao risco de crédito, o conceito básico de um exercício de teste de estresse envolve uma quantificação do impacto sobre os seguintes parâmetros: probabilidade de inadimplência (“probability of default” — PD), perda em caso de inadimplência (“loss given default” — LGD) e exposição inadimplente (“exposure at default” — EAD). Também devem ser levadas em consideração as migrações de ratings.

Recomenda-se o emprego de eventos de queda de atividade econômica ou setorial, eventos de risco de mercado, quedas de liquidez e eventos de risco operacional. Devem ser considerados cenários de recessão, embora não sejam necessárias hipóteses pessimistas extremas. Os bancos devem usar seus próprios dados para estimar as migrações de rating e integrar insights obtidos de ratings externos. Devem, também, construir seus testes de estresse com base no estudo do impacto de uma deterioração menos intensa do ambiente de crédito.

O elemento central do procedimento de teste de estresse está na variação dos parâmetros de risco:

• Probabilidade de inadimplência (PD)

• Perda em caso de inadimplência (LGD)

• Exposição inadimplente (EAD)

Sob esse enfoque, o papel das variações da PD é predominante, uma vez que LGD e EAD são quantidades duradouras que, por definição, estão condicionadas a situações desvantajososas — o inadimplemento do devedor. As possibilidades de efeitos de estresse ficam, portanto, restritas, especialmente no que toca à EAD. Tais efeitos podem ser agravados por certos fatores exógenos, como a taxa de câmbio, mas devem ser parcialmente considerados na
EAD comum. Os fatores exógenos que afetam a EAD podem somente ser relevantes se também afetarem os demais parâmetros de risco e, portanto, puderem levar a um acúmulo de influência sobre o risco.

As possíveis variâncias de LGD dependem em muito do procedimento usado na determinação desta quantidade. Assim, devem ser definidos os desvios que possam ser decorrentes de métodos de estimação, assim como os aspectos do processo que dependam das condições econômicas.

Uma vez que a determinação da LGD é, por definição, condicionada à situação desfavorável de inadimplemento, deve considerar os valores duradouros das garantias reais e levar a valores que possam ser considerados conservadores. Assim, não deve haver muitos fatores restantes capazes de conduzir a mudança
extremas da LGD. É principalmente a avaliação das garantias oferecidas que poderia ter alguma influência que não venha a ser descartada ao estressar a LGD. Mais especificamente, é possível que os fatores que afetam o valor das garantias também tenham impacto sobre os demais parâmetros de risco e, portanto, devem ser levados em consideração.

A PD é, de longe, o mais popular dentre os parâmetros de risco sujeitos a variação em testes de estresse. Há duas maneiras de integrar a PD aos processos de teste de estresse: modificação da atribuição de ratings; e modificação das PDs dos ratings atribuídos. Alterar a atribuição de ratings aos devedores no contexto de testes de estresse tem a vantagem de também permitir a inclusão de transições para créditos de liquidação duvidosa (CLDs). A variação da PD corresponde a uma mudança dos ratings. O possível desvio da atribuição de ratings pode ser promovido por meio do procedimento de rating. Assim, devem ser investigadas
as variâncias possíveis e a sensibilidade dos dados de entrada do processo de rating para se obter uma estimativa inicial dos possíveis desvios. Consequentemente, além da análise de dados históricos quanto a transições de rating, o processo de teste de estresse deve incluir pareceres de peritos quanto à metodologia de rating.

A modificação da PD dos diferentes ratings poderia ter raízes no risco sistêmico, ou seja, na dependência dos vetores de risco, que, como veremos adiante, são um dos principais temas no desenvolvimento de testes de estresse. Embora seja sensato estimar a volatilidade das PDs em um primeiro momento e usar o resultado desse procedimento nos testes com o capital regulador, um segundo passo deve diferenciar os efeitos dos riscos sistêmicos e idiossincráticos sobre os desvios da PD. Isso deverá levar a testes de estresse mais avançados e realistas, especialmente no que tange ao capital econômico.

Uma análise da estrutura de transição de ratings também poderia ser usada para determinar PDs sob condições de estresse. A vantagem da modificação das PDs em relação à modificação da atribuição de ratings está na maior variedade de opções de mudança; a desvantagem é a ausência de uma atribuição modificada às carteiras ativa e de liquidação duvidosa. Isso precisa ser feito além das modificações de PDs. Estimar o capital econômico, a PD, a LGD e a EAD pode não ser o bastante para a concepção de testes de estresse. São necessários, além disso, parâmetros usados para representar os efeitos sobre a carteira, inclusive as correlações entre empréstimos ou a dependência comum dos vetores de risco.

As investigações do risco de crédito no contexto de crises históricas demonstram que as correlações e a concentração de risco apresentam enormes desvios sob tais circunstâncias. De qualquer forma, suas variações devem, se possível, ser consideradas sob condições de estresse nos modelos de carteira. Alguns modelos avançados de estimativa do capital econômico podem até exigir mais informações, em especial com referência à situação econômica.

Quanto ao risco operacional, aqui definido como o potencial de perda resultante de eventos que envolvam pessoal, processos, sistemas e fatores externos, o desenvolvimento e a aplicação de testes de estresse é bem mais complexo. Numa instituição financeira, os processos estão interligados e há diversos sistemas que os sustentam e pessoas que os desenvolvem, operam e executam.

A diferença crítica entre o risco de crédito e o risco operacional é o fato de que as causas fundamentais do risco operacional estão, na vasta maioria das vezes, dentro da instituição, enquanto as causas dos eventos de risco de crédito são exógenas à organização. Ao estressar o risco operacional, o modelo deve incluir o estado de estabilidade (meta-estabilidade) tênue e delicado da rede interna de processos e controles. As complexas interdependências dos processos de uma organização podem ser comparadas a um monte de areia. É possível que um grande monte de areia chegue a um ponto de estabilidade, mas basta o acréscimo de um único novo grão para que grandes partes do monte desabem. O mesmo se aplica aos controles e processos internos: a organização não detectaria
necessariamente o potencial para grandes perdas devidas a avalanches de falhas processuais, uma vez que tais transições não apresentam precursores detectáveis. Mesmo com um sistema de processos essencialmente inalterado, a rede toda de processos e controles internos poderia entrar em colapso e causar perdas significativas, seja por causa de tensões externas, seja devido a flutuações raras da dinâmica interna. Estressar os controles internos é a única maneira de avaliar esta frágil estabilidade e o impacto sobre a probabilidade de ocorrência de um evento de perda devido a risco operacional. Nesse caso, a probabilidade do evento é semelhante à probabilidade de inadimplência em crédito, mas as causas fundamentais são outras. Assim, o procedimento de teste de estresse e os cenários também são distintos.

Como o teste de estresse deve fazer parte do processo interno de adequação de capital (ICAAP), é necessário que se entenda como usar os resultados dos testes para controlar e administrar o risco da carteira. O ponto de partida para isso deveria estar no capital regulador e econômico como resultado dos testes
de estresse. O primeiro passo consiste em verificar se a instituição tem capital suficiente para cobrir as necessidades da situação de estresse. Como haveria limites, amortecedores e políticas para garantir essa condição, a avaliação dos testes também deveria ser usada para rever essas ferramentas, que devem ser analisadas detalhadamente uma vez que podem ser aplicáveis a diferentes níveis da carteira (como limites para subcarteiras, governos, ou devedores, por exemplo).

O conceito de testes de estresse estaria incompleto se não soubéssemos quando é preciso considerar medidas concretas por causa dos resultados dos testes. Faz sentido introduzir indicadores e limites que sugiram quando:

• informar a administração a respeito de acontecimentos potencialmente críticos;

• desenvolver diretrizes para novos negócios de maneira a evitar a ampliação de grupos de risco existentes;

• reduzir o risco da carteira ou de subcarteiras com a ajuda de securitização e consórcios;

• reajustar um sistema existente de gestão de limites e o amortecedor de capital em relação ao risco operacional;

• reconsiderar a política de risco e a tolerância ao risco.

Alguns indicadores para determinar a tomada de medidas poderiam ser:

• o aumento, acima de um determinado limite ou de um certo fator, de indicadores de risco como Perda Esperada, Perda Inesperada, ou Déficit Esperado;

• o aumento, acima de um determinado limite ou de um certo fator, dos requisitos de capital (regulador ou econômico);

• a queda do índice de solvência do capital ou dos requisitos de capital abaixo de um determinado limite;

• um baixo nível de solvência para atendimento aos requisitos de CE sob condições de estresse;

• quando um quantil especificado da distribuição de perda da carteira sob estresse não se enquadrar em um quantil especificado da distribuição de perda da carteira original;

• quando a perda esperada da carteira sob estresse superar o custo padrão do risco (calculado com base na Perda Esperada pelo prazo dos empréstimos) em um determinado fator ou aproximar-se demais da perda inesperada da carteira sem estresse.

• Se a relação risco/retorno ficar acima de um determinado limite, quando medido o risco em termos de Perda Inesperada.

 

Conclusão

Os recentes acontecimentos verificados no mercado deram destaque à importância dos testes de estresse em bancos e outras organizações prestadoras de serviços financeiros. Há diversos temas importantes nas primeiras lições aprendidas com o recente caos dos mercados.

Em primeiro lugar, é essencial que a alta administração esteja envolvida na supervisão de um programa abrangente e coordenado de testes de estresse e cenário. É crucial que haja análise de estresse e cenário relevantes e de alta qualidade. A dedicação da alta administração é um pré-requisito para integrar
os testes de estresse às decisões de negócio, risco e capital e incentiva uma exploração mais detida dos riscos extremos, além de cenários adversos mais amenos.

Em segundo lugar, o contágio. É importante que as instituições analisem melhor os mecanismos de transmissão e contágio (inclusive a extensão dos efeitos em cadeia e de reforço de um cenário de estresse inicial para outros mercados ou produtos) e reflitam melhor a respeito de como as correlações de risco podem mudar sob condições de estresse.

Em terceiro lugar, uma visão holística da organização como um todo. As instituições devem ser capazes de conduzir testes de estresse e cenário que ajudem a identificar e avaliar riscos no nível da instituição como um todo. O programa de teste de estresse deve ser holístico em termos de captação de riscos e de abrangência. A instituição deve ser capaz de realizar testes de estresse em diferentes níveis (por exemplo, também nos níveis de unidade de negócio e de linha de negócio) e reunir de forma coerente avaliações descendentes e ascendentes do risco.

Finalmente, estresses de liquidez. Uma situação de crise de liquidez num mercado pode espalhar-se por contágio para muitos outros, além de, ao afetar as posições de liquidez das instituições, expô-las a estresses de capital, inclusive aqueles decorrentes de transações em cadeia que não possam ser distribuídas
da maneira planejada sob condições de demanda reduzida e de exposições extra-balanço que precisem ser readmitidas.

 As observações, interpretações e conclusões aqui representadas são do autor e não refletem necessariamente as do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento / Banco Mundial e de suas coligadas, ou as dos Diretores Executivos do Banco Mundial ou dos governos que representam.

 

 


Autor

 Dr. Lourenço Miranda

é Senior Risk Officer da International Finance Corporation (IFC) — braço do setor privado do World Bank Group — baseado em Washington, DC. É autor de inúmeros artigos publicados em revistas e jornais internacionais, palestrante convidado em conferências no Brasil e diversos outros países e há mais de 19 anos vem lecionado em vários centros acadêmicos do Brasil e no exterior. Com larga experiência em modelagem e gestão de riscos em Bancos Comerciais brasileiros e estrangeiros atua também como consultor interno no desenvolvimento e implementação da prática de gestão de riscos operacionais no IFC. Atualmente lidera projetos de desenho e implementação da prática da gestão de riscos em instituições financeiras médias e pequenas no Sri Lanka (Risco Operacional), na Rússia (Risco de Mercado e Operacional) e na China (Risco de Crédito). LMiranda@ifc.org


  • 2012 Serasa Experian. Todos os direitos reservados.