A disciplina envolvida no cálculo do capital econômico, usada geralmente no enterprise risk management (ERM), também dá resultados no mercado. A maior transparência do verdadeiro risco confere às instituições a confiança necessária para competir com mais certeza e agressividade. Muitas empresas adotam programas de enterprise risk management (ERM) pelos motivos “defensivos” da identificação de riscos e atendimento à regulamentação. Essas metas são importantes, mas a principal motivação do ERM deve ser a busca por vantagem competitiva através de melhores decisões de risco-recompensa em todos os níveis do banco.
© 2005 RMA. David Samuels é vice-presidente executivo da ERisk, uma fornecedora de soluções completas de gestão estratégica de risco, inclusive análise de Capital Econômico, sistemas operacionais de risco, consultoria, e workshops e palestras para o nível executivo. Entre em contato com David Samuels por email no endereço dsamuels@erisk.com.
Para conferir vantagem competitiva, o programa de ERM deve basear-se em uma estrutura de capital econômico quantitativa que atribua valores ao risco e aos custos do capital e, com isso, permita à empresa aplicar a ciência administrativa a suas estratégias competitivas.
Tratando-se de empresa, uma estrutura de capital econômico oferece ao banco uma vantagem imediata porque permite comparar seus requisitos de capital econômico com o capital disponível e decidir se está carregando capital demais (ou de menos) em relação aos riscos que assume. O risco de contar com menos capital do que o necessário é óbvio, mas ter capital mais elevado é igualmente arriscado e reduz o rendimento do patrimônio da empresa. Programas de risco adequados permitem que a organização otimize o uso do capital, desviando-o de atividades de baixo rendimento e expandindo atividades de rendimento elevado para que “absorvam” qualquer capital excedente.
Programas de ERM que incluam análise de capital econômico também ajudam os bancos a concorrerem diretamente no mercado; mais especificamente, se os bancos atribuírem com precisão custos de capital às suas atividades, também poderão usar essas informações para:
• Identificar as linhas de negócio que rendem o maior lucro ajustado ao risco e dar-lhes recursos e incentivo para que rendam ainda mais.
• Basear limites de crédito em análise de capital econômico, de modo que as linhas de negócio estejam livres para concorrer sempre que do ponto de vista econômico for conveniente.
• Competir agressivamente no mercado pelas transações que oferecem o melhor spread ajustado ao risco.
Analisemos essas três camadas de vantagem competitiva.
Jogue com seus Pontos Fortes
Em todo o setor, as decisões competitivas dos bancos ainda são distorcidas pelo uso de indicadores simples de volume e market share como sinais de sucesso ou pelo uso do capital regulador como substituto do capital econômico nos cálculos de lucratividade “ajustada pelo risco”. Essas medidas fracas e imprecisas de desempenho fazem com que os bancos avaliem mal os custos relativos de crédito de diferentes tipos de transação e ignorem ou subestimem determinados riscos embutidos de taxa de juros e operacionais.
O resultado é que os executivos dos bancos muitas vezes têm dificuldade para comparar atividades — mesmo aquela que sejam semelhantes mas operem em regiões diferentes ou ofereçam produtos não exatamente idênticos. No fim das contas, não há sentido e nem vantagem em usar um sistema de lucratividade que careça da capacidade analítica e da credibilidade necessárias para dar sustentação às decisões competitivas.
A boa prática em análise de capital econômico ajuda a superar esse problema porque faz com que o verdadeiro custo do risco seja transparente. A Figura 1 ilustra uma análise de capital econômico típica de quatro unidades de negócio que pareciam muito semelhantes pelas medidas tradicionais — e onde as maiores taxas de crescimento das Unidades B e C tendiam a atrair maior investimento do banco.
Uma vez levados em consideração os verdadeiros custos do capital, a coisa muda de figura. Vemos que a Unidade A tem rendimento do capital ajustado pelo risco extraordinariamente elevado e muito maior valor intrínseco (resultados derivados por meio da aplicação do modelo de desconto de dividendos ao rendimento observado do capital) do que as Unidades B e C.
Os bancos que sabem quais de suas unidades estão proporcionando lucros de longo prazo podem destacar capital para elas. Uma análise semelhante pode ajudar os bancos a identificar que linhas de negócio e carteiras de ativos devem comprar e gerenciar agressivamente por meio do ajuste das diferenças entre os preços dos produtos bancários.
As Figuras 2a e 2b baseiam-se na análise de capital econômico que a ERisk realizou para um banco cujo nome e cujos dados foram alterados por questões de sigilo. A Figura 2a mostra como o banco vem alocando capital (e custos de capital) de maneira intuitiva, comparando essas alocações com as atribuições de capital econômico extraídas da análise da ERisk. A análise resultante (Figura 2b) deu melhor tratamento à qualidade de crédito, à concentração da carteira e à diversificação do risco, nenhuma das quais estava totalmente presente na abordagem intuitiva. Isso melhorou a compreensão do banco acerca da lucratividade por unidade de negócio em relação à taxa de corte (linha pontilhada). Podemos ver que o banco vinha superestimando consistentemente seu sucesso em áreas como crédito imobiliário comercial e subestimando em mercados como os de hipotecas subordinadas.
Essas informações são de especial importância para ajudar o banco a identificar as áreas em que seus produtos são mais competitivos, de maneira a poder canalizar investimentos para elas. Mas também surte efeito direto sobre como o banco compete no mercado. Por exemplo, o banco descobriu que tinha suficiente flexibilidade para implementar uma diferenciação de preço muito mais sutil e precisa em toda a sua linha de produtos e, com isso, competir ainda mais agressivamente em preço na área de garantia hipotecária subordinada.
A análise de capital econômico freqüentemente confere aos bancos a confiança necessária para competir agressivamente em linhas de produto que parecem relativamente arriscadas mas, na verdade, têm margens ajustadas ao risco atraentes.
Minimize seus Pontos Fracos — Rapidamente
Os bancos que se especializam em um produto, em uma região ou em uma base de devedores (como a maioria de médio porte) muitas vezes tornam-se competidores mais bem sucedidos como resultado direto dessa especialização. Mas isso traz um custo: concentrações acumuladas de risco implicam rendimentos voláteis e acabam por atrair custos de capital. Por exemplo, o capital econômico relativamente alto atribuído á unidade de crédito imobiliário comercial na Figura 2a pode dever-se a uma concentração de unidades semelhantes em uma só área geográfica ou em um só tipo de imóvel, deixando a carteira vulnerável a um surto inesperado de perdas.
A solução não está nos limites simples por carteira ou cliente (porcentagem da carteira, por exemplo) tradicionalmente usados pelos bancos para estabelecer um teto para as concentrações: esses limites não consideram com precisão as diferenças de ciclo entre linhas de negócio e não podem ser sensibilizados ao efeito incremental do acréscimo de determinadas transações à carteira do banco como um todo. Os bancos ainda são afetados por riscos ocultos de concentração pelos quais não são remunerados, ao mesmo tempo em que recusam negócios que são, na verdade, economicamente positivos.
Para competir com eficácia, os bancos precisam fazer uma escolha economicamente racional entre os custos de capital da concentração e os benefícios em realizar cada transação adicional (dado seu spread). O modo mais adequado de lidar com o fato é estabelecer os limites de crédito bancário com base em uma análise de capital econômico que abranja toda a instituição. Os bancos podem, então, estabelecer limites “rígidos” sobre as concentrações setoriais em carteira em termos de pontos percentuais de capital econômico, além de limites “flexíveis” no nível da transação que se voltem para o risco incremental de concentração — e, portanto, para os custos de capital econômico — atraídos por uma transação adicional. A análise pode ser estendida de maneira a ajudar o banco a definir como usar os mercados de transferência de risco — swaps de inadimplência em crédito, por exemplo — para reduzir as concentrações da carteira da maneira mais eficaz em termos de custos. Os executivos devem considerar que os limites baseados em capital econômico são uma maneira rápida de dar às unidades de negócio maior liberdade para concorrer sempre que possível para a instituição como um todo.
Competição Agressiva — Pelos Negócios Certos
Tradicionalmente, a maneira mais coerente para uma unidade bancária ser mais bem sucedida é aproveitar o ciclo econômico, atingindo as metas de crescimento simplesmente porque o mercado de crédito também cresce. Quando o mercado piora, o banco precisa continuar a aumentar a market share emprestando o dinheiro em níveis que poderiam não coincidir com o ponto de vista econômico. Podem ser encontradas provas disso na corrida pelos menores preços de empréstimos que acontece em algum ponto de todos os ciclos de crédito. O objetivo final do ERM deve ser o de ajudar os bancos a abandonar esse hábito e competir apenas pelas transações e relacionamentos disponíveis no mercado que, ajustados ao risco, criem valor para o acionista independentemente da conjuntura do mercado.
Para sustentar esse esforço, o banco deve basear sua análise de capital econômico em descrições detalhadas e precisas de suas carteiras, de modo que quaisquer aplicativos empresariais de capital econômico que o banco desenvolva tenham granularidade suficiente para revelar o custo do risco até o patamar da transação individual. Para aplicar essas informações aos preços de mercado, os bancos também devem realizar tarefas simples de manutenção para garantir que os demais fatores do preço (especialmente a precificação e alocação de custos da transferência de fundos) sejam precisos nesse nível de granularidade. Os benefícios podem ser grandes, como vemos na Figura 3. Os Xs indicam o preço efetivo que um banco cobrou por empréstimos dentro de cada uma das 10 faixas de rating de seu sistema e a linha sólida indica a média desses preços. A linha pontilhada representa o preço ajustado ao risco que o banco deveria ter cobrado para obter um rendimento apropriado em todas as faixas, como revela uma análise de capital econômico da carteira.
Podemos ver que a precificação efetiva do banco está, na média, direcionalmente correta: créditos de pior qualidade implicam maiores spreads. Mas também percebemos que há, dentro de cada faixa de rating, uma notável dispersão de pontos de precificação e que, na média, o banco está cobrando caro demais por empréstimos de alta qualidade e muito pouco pelos de qualidade inferior.
Os credores muitas vezes se preocupam com a possibilidade de que o preço “baseado no risco” sugerido por essa análise seja mais elevado do que o preço vigente do mercado. Na verdade, a precificação pelo risco tem muito mais a ver com a diferenciação entre transações do que com a imposição de qualquer tipo de aumento geral dos preços de uma carteira. A Figura 4 analisa o número de clientes que levam dinheiro para um banco típico uma vez que se considere o risco. Em termos de vantagem competitiva, a Figura 4 mostra diversas coisas importantes:
• O banco poderia competir mais agressivamente em preço por créditos de alta qualidade.
• O banco poderia competir com mais agressividade por transações de qualquer qualidade de crédito que esteja acima da linha pontilhada, tomando esses negócios de seus concorrentes.
• O banco deveria dar mais incentivo aos seus executivos que estejam acertando — ou seja, aqueles que conseguem estabelecer preços na linha pontilhada ou acima dela.
De fato, o banco também deve procurar melhorar o spread ajustado ao risco das transações que, do contrário, se encontram bem abaixo da linha pontilhada. Isso, em muitos casos, pode ser realizado por meio de estruturação mais cautelosa (montante e tipo da garantia real, por exemplo) e por pequenas alterações de preços.
Os sistemas de capital econômico podem ajudar nessa estruturação porque seus cálculos do preço ajustado ao risco de um empréstimo baseiam-se na combinação de todos os fatores de risco, inclusive perda em caso de inadimplência e vencimento. Isso quer dizer que eles podem ser usados para orientar os executivos no que se refere ao tipo de transação (por exemplo, mais garantia real, ou garantia real de tipo diferente) que gera um maior spread ajustado ao risco e, portanto, leva a uma precificação mais competitiva.
Para justificar uma transação que pareça “falha”, grande parte dos credores cita os lucros que tendem a ser gerados pelo relacionamento total com o cliente, como os originados por depósitos e tarifas de cash management. A vantagem dos sistemas de capital econômico é que eles atribuem um valor à diferença entre a transação e a ‘linha d’água’, valor esse que pode, então, ser comparado racionalmente com o relacionamento geral com o banco. Isso permite que o banco possa precificar uma transação de forma agressiva, ciente de que o relacionamento como um todo é economicamente viável. A Figura 4 mostra como pode ser importante esse fator competitivo. Cerca de 20% dos clientes do banco são responsáveis pela maior parte de seus lucros, enquanto a maioria se encontra nas vizinhanças do breakeven e aproximadamente 25% estão reduzindo os lucros. A posição que um cliente ocupa na Figura 4 deve, evidentemente, ser um fator-chave na decisão de quão agressivamente o banco deve competir por ele — e o porte de quaisquer fontes de prejuízo que o banco deve oferecer sob a forma de menores margens ajustadas ao risco.
Uma análise ajustada ao risco da lucratividade de todos os componentes de um relacionamento também ajuda o banco a entender porque seus melhores clientes são lucrativos, de modo a poder lançar campanhas focadas na sua conservação e atração de outros clientes similares. O banco também pode desenvolver uma estratégia para lidar com clientes que não sejam lucrativos, seja ela reprecificando os elementos do relacionamento ou simplesmente deixando que o cliente saia dos livros.
O plano em três etapas a seguir, para melhorar as decisões competitivas em geral, pode ser implementado no decorrer de um horizonte de tempo de três meses:
• Determinar o grau de distorção da lucratividade atualmente existente na carteira de empréstimos do banco.
• Analisar as características dos clientes que estão muito acima ou muito abaixo da taxa de corte ajustada ao risco do banco.
• Desenvolver estratégias para melhorar a lucratividade ajustada ao risco da carteira, usando a precificação pelo risco como uma das principais ferramentas.
A precificação pelo risco e os planos de ação para relacionamentos podem ajudar os bancos a melhorar suas margens ajustadas pelo risco numa carteira de crédito comercial em até 15 pontos base no primeiro ano, com oportunidades para chegar a até 30 ou 40 pontos base no prazo mais longo.
É importante observar que uma melhor lucratividade não precisa ocorrer às custas de market share. Recentes simulações de precificação realizadas pela ERisk demonstram que os bancos com sistemas de mensuração de risco mais poderosos do que os de seus concorrentes podem aumentar a market share (oferecendo menores preços pelos bons negócios) ao mesmo tempo em que melhoram a lucratividade média ajustada pelo risco.
Conclusão
Os bancos que encaram o ERM apenas como exercício de identificação de risco, auditoria ou atendimento à regulamentação podem estar perdendo importantes benefícios competitivos. O ERM tem por objetivo entender os custos de capital das suas atividades para competir agressivamente, adquirindo as linhas de negócio, transações e relacionamentos que tragam os maiores lucros ajustados ao risco para os acionistas.
Uma diferenciação mais precisa do risco das transações também pode ajudar os executivos a redesenhar os processos de crédito: por exemplo, eles podem concentrar a atenção do comitê de crédito nas transações economicamente mais arriscadas, em vez de apenas nos negócios de grande porte, com isso reduzindo os custos e acelerando a tomada de decisões.
Os bancos que não aplicam seus programas de ERM a um aprimoramento de suas decisões e processos competitivos provavelmente verão as oportunidades e mercados estratégicos serem tomados deliberadamente por concorrentes mais sofisticados (os reguladores referem-se ao fato como a ameaça de seleção adversa de riscos).
A Figura 5 resume as principais vantagens competitivas de um sistema de ERM baseado no capital econômico e fornece alguns cronogramas típicos de implementação. Na prática, a obtenção desses benefícios está relacionada com a correta formulação de uma estratégia de implementação e com a aplicação dessas novas informações para mudar a cultura e os incentivos de sua organização.
Notas
1. ERisk Report, Junho/Julho de 2005, Vol IV, No. 4.
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