Revista Tecnologia de Crédito

Revista Tecnologia de Crédito

O Desenvolvimento da Qualidade do Crédito Mercantil
Edição 54

O crédito é um dos mais importantes instrumentos de administração do capital de giro de uma empresa, seja para o cliente, seja para quem concede o crédito — empresa financeira ou empresa não financeira.

O sucesso da operação de crédito, tanto do ponto de vista do agente tomador quanto daquele que concede, depende da correta utilização dos recursos por parte do primeiro e, principalmente, da correta avaliação da capacidade de liquidez por parte do segundo. A adequada avaliação da capacidade de liquidez depende da definição de critérios de análise do cliente, que envolve sua situação econômico-financeira e o enquadramento da operação no fluxo de caixa do tomador do recurso.

Do ponto de vista do financiador, todo o processo de recebimento das informações de um cliente, avaliação e tomada de decisão deve seguir um processo desenhado com base em critérios definidos pela empresa, os quais são considerados seguros sob o prisma do retorno da operação. Esses critérios devem estar registrados na política de crédito.

Mas quais são os melhores critérios de controle do risco das operações de crédito? Como esses critérios são definidos?

No caso de empresas financeiras, existem parâmetros básicos claros para o controle do risco das operações de crédito, definidos pelo Banco Central. Aliás, o nível de critério dos controles dos riscos envolvidos no processo decisório de crédito para empresas financeiras é bastante elevado, o que é natural e necessário, pois as instituições financeiras são responsáveis também pelo fomento e pela sustentabilidade do crescimento da economia como um todo, e processos mal definidos e decisões equivocadas poderiam levar ao colapso de todo o fluxo de recursos da economia.

Assim como o crédito concedido por empresas financeiras é importante para o fluxo econômico-financeiro, o crédito concedido através de transações comerciais (crédito mercantil) também o é, pois da mesma forma proporciona ao cliente condições de administração do seu capital de giro.

Podemos afirmar que no Brasil uma empresa recorre a linhas de financiamento de capital de giro em bancos quando suas fontes naturais de financiamento (principalmente fornecedores) não são suficientes para a administração da operação, pois o custo do financiamento bancário é muito alto, e porque nem todas as empresas têm acesso a linhas de crédito, devido ao seu porte, à sua falta de transparência na divulgação de informações, à sua cultura na administração financeira, dentre outros motivos.

Outra informação que reforça a afirmação acima, é que a participação do crédito concedido por bancos tem perdido espaço para o crédito mercantil, isto é, para o prazo concedido pelos fornecedores aos seus clientes. Conforme levantamento efetuado pela Serasa, em junho de 2005, o crédito bancário — representado pelas contas “Financiamentos Bancários” de curto e longo prazos — apresentou crescimento real (descontada a inflação) de 11%, enquanto o crédito mercantil registrou uma expansão de 72%.

Segundo pesquisa da Serasa, entre 1994 e Junho de 2005 o total de financiamento de fornecedores passou de R$ 107,5 bilhões (valor corrigido monetariamente) para R$ 185,7 bilhões, um aumento de 73%, enquanto os financiamentos bancários passaram de R$ 276,1 bilhões para R$ 306,8 bilhões, com variação de apenas 11%.

Esse processo de migração de fonte de financiamento, do crédito bancário para o crédito mercantil também é explicado pelo fato de que algumas empresas fornecedoras enxergaram na concessão de crédito uma importante fonte de receita, representada pelo juro cobrado do cliente em patamar superior ao seu custo de capital, além da maior estabilização do ambiente econômico, o que diminuiu o risco de perdas geradas por inadimplência.

Considerando a importância e o volume do crédito mercantil, o desenvolvimento de parâmetros básicos claros para o controle do risco das operações de crédito é essencial para o sucesso da operação da empresa, pois além de tratar-se de um aspecto crucial na administração financeira, envolve também o relacionamento de negócios da empresa com seus clientes.

Nesse sentido, uma decisão de concessão de crédito pode gerar prejuízo pela inadimplência do cliente. Por outro lado, uma decisão equivocada de recusa de crédito origina dano pela não realização de um negócio que poderia ter gerado retorno, podendo afetar inclusive o relacionamento comercial. Ambas as situações acima causam problemas na administração do free cash flow da empresa.

Necessidade de Melhorias

Na década de 90 vários casos de quebras de empresas do setor de varejo provocaram prejuízos a bancos e fornecedores e despertaram estes últimos para a necessidade de melhorias nos critérios de controle do risco de crédito, porém não se verificou entre eles um movimento de discussão para melhoria e padronização.

Nos Estados Unidos, com os escândalos financeiros envolvendo empresas de grande porte, no início dos anos 2000, o governo americano, preocupado com a transparência da governança corporativa, criou regras que obrigam as empresas, com capital registrado na Bolsa de Valores daquele país e de suas subsidiárias em outros países, a documentar e testar os controles significativos relacionados aos processos que afetam os demonstrativos contábeis — a Lei Sarbanes-Oxley, também conhecida como SOX.

O impacto da SOX tem sido bastante positivo na melhoria do controle dos riscos considerados críticos nas operações das organizações, inclusive de algumas das maiores empresas brasileiras. Além das empresas brasileiras controladas por organizações americanas, aquelas nacionais com ações registradas na Bolsa de Valores dos Estados Unidos também são obrigadas a se ajustar às normas da SOX.

Dentre os controles a serem ajustados, a atividade de crédito é um ponto importante, o que tem levado as organizações a padronizar os critérios de avaliação, decisão, formalização e monitoramento das operações de crédito.

Segundo a SOX, cada empresa é responsável pela identificação dos controles significativos que mitiguem os riscos inerentes aos processos como, por exemplo, o processo decisório de crédito, o qual, se mal desenhado e executado, pode causar riscos de prejuízos em função do aumento da inadimplência, seja por decisões de má qualidade, seja por fraudes no processo.

Como todo o processo de implantação e performance dos controles deve ser auditado, as empresas têm recorrido às organizações de auditoria para definir os pontos de controle em conjunto.

No caso do controle do risco da operação da atividade de Crédito, o monitoramento, em geral, tem o seguinte foco:

• Documentos necessários para a constituição do dossiê do cliente para a avaliação do crédito.

• Critérios adotados para a definição dos limites de crédito.
• Definição das alçadas de decisão.
• Formalização das decisões de crédito.
• Mapeamento do sistema de controle das operações de crédito para a identificação das transações consideradas críticas no sentido de poderem ser usadas de forma equivocada e por isso causar prejuízos para a organização.
• Identificação dos profissionais que tem acesso às transações do sistema que dão a possibilidade de modificação de limites de crédito ou aprovação manual de pedidos.

Como mencionado anteriormente, as empresas não financeiras não possuem um órgão regulador/orientador, como é o Banco Central para as empresas financeiras. Entretanto, a SOX começa a direcionar as empresas não financeiras para uma melhor organização e controle das suas atividades de Crédito, pelo menos no que diz respeito aos processos, o que, com certeza, deverá levá-las a uma melhor qualidade das decisões de crédito.

Mas, neste momento de criação e implantação de novos processos de controle, as empresas, de forma geral, têm enfrentado problemas internos de adaptação da operação ao dia a dia dos negócios de vendas, pois naquelas em que não havia, por exemplo, o controle de coleta da assinatura da alçada competente na formalização da decisão, as liberações de operações a prazo passaram a se tornar mais lentas, gerando problemas de relacionamento entre a área de Crédito e a Comercial, bem como com os clientes.

Controle Eficiente

A alternativa para essa fase de transição para um processo mais ágil, e ao mesmo tempo mais controlado e seguro, é o desenvolvimento de sistemas, que registrem, de forma automática, toda e qualquer consulta a respeito da posição de crédito do cliente, na avaliação, revisão, e monitoramento do crédito e na aprovação dos pedidos, de forma que o sistema seja o instrumento de registro da formalização de todas as atividades ou, se isso não for possível, de pelo menos a maior parte do processo.

Algumas empresas de Credit Bureau já identificaram essa necessidade da área de crédito mercantil e passaram a desenvolver ferramentas que permitem um controle cada vez mais eficiente das informações a respeito dos clientes, e do processo de avaliação, decisão e monitoramento do crédito, e da sua formalização, com foco na agilidade da decisão.

A Serasa, por exemplo, criou o Gestor de Crédito, sistema que automatiza o processo decisório de crédito, com base na Política de Crédito da empresa e no seu critério de formalização das decisões. Essa ferramenta resolve o problema anteriormente citado de atraso na decisão de crédito e, ao mesmo tempo, melhora o controle das decisões, uma vez que o resultado da consulta se dá em segundos, com base em critérios pré-definidos no sistema, conforme descrito em sua Política de Crédito, e registra informações importantes como usuário que realizou a consulta, apresenta o resultado de pesquisas anteriores a respeito de um cliente — constituindo um histórico.

Considerando a evolução — ou quem sabe um início de uma revolução — da qualidade do processo decisório do crédito mercantil, vislumbra-se a oportunidade real de uma melhoria na organização e da padronização dos critérios de avaliação, decisão, formalização e monitoramento de toda a atividade de administração do risco de crédito, o que não significa que todas as empresas devam tomar as mesmas decisões de crédito. A decisão de crédito sempre deve fazer parte do planejamento estratégico de desenvolvimento do negócio como um todo, levando-se em consideração a relação Risco x Retorno.

Referências:

www.pcabus.org (PCAOB - Public Company Accounting Oversigh Board).
www.sec.gov (SEC - Security Exchange Commission).
www.coso.org (COSO - Committees of Sponsoring Organizations).
Site UOL / Canal Executivo / Pesquisa - Crédito mercantil cresce mais que o bancário.

 

 

 


Wagner Tadeu Crestani Justino é responsável pela Área de Crédito da Multibrás S/A Eletrodomésticos e Economista, com MBA - Gestão de Negócios pela FEA-USP.


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