Revista Tecnologia de Crédito

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Economia Brasileira: Mais Bem Preparada para 2006
Edição 52

Um clima de certo desânimo dominou o Brasil nos últimos meses do ano passado porque, ao contrário do que todos previam, o crescimento do PIB encolheu. Não recuou, continuou se expandindo, apenas cresceu menos. As cassandras começaram a falar em catástrofes, em caos, em erros crassos da política econômica, enfim, não faltaram argumentos falaciosos para forçar a pregação de mudanças drásticas na política, até agora acertada, seguida pela equipe econômica. Não se ouviu uma voz sequer comparando os resultados de hoje com aqueles verdadeiramente dramáticos do início do governo Lula, quando todas as portas se fecharam para o Brasil. Naquele momento, sim, previa-se o caminho do caos, da insolvência.

Como explicar essa onda artificial de pessimismo? Qualquer analise começa e termina no clima político e não econômico. As denuncias de corrupção, as CPIS, as cassações, os milhões de reais e dólares que passaram a rolar pelo noticiário, a crise interna que afetou o PT, a cassação de José Dirceu, o homem forte, o “primeiro ministro” do Governo, o deslustre da própria imagem do presidente, enfim, tudo o que o leitor acompanhou e ainda está acompanhando até com cansaço e exaustão, foram os fatores decisivos que alimentaram esse pes­simismo, decididamente exagerado. E daí, a crescer apenas 2,3% ou 3% passou a ser interpretado como uma tragédia que bem servia aos propósitos da oposição à política econômica mais dentro do que fora do governo. Houve momentos em que parecia até que a oposição defendia preferentemente o presidente do que o seu próprio partido.
Dessa forma, para uma visão distante, lúcida da eco­nomia na­­ci­­onal urge, acima de tu­do, afastar esse foco político, não se deixar influenciar pe­lo que surge dia a dia na imprensa, e identificar os fatos básicos e os desafios reais, alguns vencidos no ano passado e outros ainda por enfrentar e superar neste.

Para tanto, vamos dividir teo­ricamente os dois planos, o interno e o externo, o que houve aqui e lá fora. Ambos confluem, sim, mas seguem antes um longo caminho paralelo.
Externamente, o Brasil nunca foi favorecido por uma conjuntura melhor do que a atual, caracterizada por vários fatores:

1. Após um primeiro semestre dúbio e até desanimador, a economia dos principais países que representam mais de 70% do PIB mundial iniciou um processo de expansão, crescimento e, mais importante ainda, diversificação. Com a única exceção da União Européia, quase todas as demais economias voltaram a crescer, deixando para trás um ano nada animador.

2. O preço do petróleo que parecia colocar em risco qualquer tentativa de recuperação, parou de crescer e foi absorvido sem grandes traumas, até mesmo no Brasil.

3. Não houve e não há, no momento, qualquer ameaça de nova pressão inflacionária, não só nas economias desenvolvidas, mas também nas emergentes. A media anual medida pela Organização para o Desenvolvimento Econômico e Social (OCDE), oscila em torno de 2%, 2,5%, uma das mais baixas conhecidas até hoje. Há ressalvas, como a Rússia, porém menos importantes. Poderíamos citar aqui a exceção brasileira, mas esta é uma estória à parte, pois vínhamos de taxas excepcionalmente elevadas e, acima de tudo, iniciávamos um novo governo que, se acreditava, iria desfazer todas as anteriores conquistas fiscais e monetárias — decisivas para conter pressões inflacionárias. Isso não aconteceu e, em termos de inflação, seguimos ainda um caminho penoso que parece aproximar-se de seu ponto final de estabilidade.

4. As duas principais conseqüências desse cenário favorável foram um aumento expressivo da liquidez externa, protegendo fortemente países emergentes, como o Brasil, que dependem do mercado internacional para financiar o déficit . A outra conseqüência foi uma expressiva evolução do comércio mundial provocado pelo crescimento das principais economias.

O Brasil Soube Aproveitar

Mas como esse cenário externo beneficiou o Brasil? E, se favoreceu, porque o PIB cresceu menos?

As respostas que a oposição ao Governo — dentro do Governo — não quer ouvir são obvias e simples. O Brasil soube aproveitar, com grande senso de oportunidade, esses fatores externos.

1. Captou no mercado financeiro, a preços razoáveis, tudo o que precisava para se custear e fechou suas contas já no terceiro trimestre.

2. Aumentou, consi­deravelmente, suas ex­­portações, superan­do recordes sobre recordes, o que gerou um superávit comer­cial ver­­­da­deiramente salvador. Assim, as necessidades de empréstimos externos foram menores e reduziu-se a divida externa.

3. Como ponto final, chave, após dois anos de intensa desconfiança no País e a perseverança de uma política fiscal exemplar, o Brasil reconquistou a credibilidade perdida nos meios do mercado financeiro internacional. O risco Brasil simplesmente desabou. É o menor da historia, e hoje poderíamos levantar tantos bilhões de dólares quanto eventualmente quiséssemos. Em uma frase: A política econômico-monetária-financeira em 2005 funcionou.

Erros e Acertos

Passemos agora aos cenários internos. O que fizemos e o que deixamos de fazer? Onde erramos e onde acertamos? E o que há ainda a ser feito?

1. Fizemos muito pouco para fortalecer, ampliar, fazer evoluir o mercado interno de trabalho e consumo, os quais se juntam logo no inicio do processo, pois gerar empregos equivale a aumentar renda, demanda e crescimento econômico, embora nem sempre — e às vezes quase nunca — se registre uma distribuição de renda mais equânime.

2. As principais causas foram as altas taxas de juros — decididamente exageradas por uma prudência discutível — e a falta de investimentos internos e externos. O mercado interno simplesmente estagnou e, como uma das conseqüências, os investimentos externos também.

Aqui, entra um terceiro fator positivo, mas insuficiente. Na ausência desse mercado doméstico, as empresas voltaram-se acertadamente para onde poderiam vender sua produção, ou seja, o mercado externo. Esse foi, sem duvida, o maior êxito da política econômica do Brasil atribuído aos trabalhos ingentes dos ministros Luiz Fernando Furlan e Roberto Rodrigues. Podem ser apresentados outros argumentos, mas a persistência e a coragem de ambos em enfrentar oposição dentro do Governo, principalmente do ministro Celso Amorim, que só tem criado problemas e obstáculos inspirados por uma ideologia de caverna à realização de acordos bi e multilaterais com parceiros poderosos, contribuíram para esse terceiro fator.

Os empresários que optaram — não foram obrigados — buscaram no exterior o mercado que não existia aqui e tiveram um apoio corajoso desses dois ministros.

Essa política voltada para o exterior no desempenho econômico foi vital. A economia cresceu nos últimos dois anos — apesar de que menos em 2005 — porque as exportações de agroprodutos, commodities minerais e produtos manufaturados decolaram, chegando a níveis históricos sem precedentes. Basta ver os indicadores do comércio externo, compará-los com o desempenho de produção, pagamento de impostos e empregos desse setor, e é imediata a conclusão de que eles representaram — direta e indiretamente — mais de 50% do crescimento do PIB.

Exportar é a Solução

Nestes dois anos, o setor produtivo brasileiro abriu-se para um mercado externo até agora desprezado por ser mais difícil de conquistar, pois exige qualidade e decisão de assumir riscos, e que agora está em franca expansão.

Sendo assim, tudo deveria estar bem. Mas não é bem assim. Pode-se dizer que a respeito da vitalidade do setor exportador nem “tudo vai bem”. Antes ia mal, e hoje, está melhor, mas poderia e precisa urgentemente ser aprimorado, pois todas as condições internas e externas são favoráveis. Há produção disponível para atender tanto o mercado interno como externo: os produtos brasileiros firmaram imagem de boa qualidade e as empresas aprenderam a exportar embora haja ainda um enorme espaço para que adquiram cultura exportadora, para ficarmos apenas com esses fatos.

O que falta, o que decididamente entravou uma ascensão ainda mais espetacular das exportações, peça-chave do crescimento brasileiro na conjuntura atual, foi a teimosia dos administradores da política monetária em nada fazer para impedir a desvalorização anormal do dólar. Não se pode utilizar o câmbio para suprir a ineficiência empresarial, a baixa qualidade dos produtos, a ganância de gerar lucros internos, mas, sem dúvida alguma, o câmbio, quando criteriosamente utilizado, é uma das peças mais importantes de uma política comercial exportadora.

Se alguém duvida, pergunte à China, que exporta mais de US$ 700 bilhões por ano, porque ela resiste tenazmente à terrível pressão do governo americano de manter um yuan desvalorizado, de atrelar sua moeda ao dólar! E não foram só os Estados Unidos, mas também a Europa e todos os demais países asiáticos que são parceiros comerciais importantes.

No Brasil, erramos ao não atentar para isso, a não jogar a bóia ao único passageiro que ainda tinha consigo o segredo do crescimento econômico importante porque as exportações trazem em si um círculo virtuoso:

1. Inteiram investimentos externos — dólares que entram quando as grandes empresas se instalam no País para formar bases exportadoras e de abastecimento interno, além dos recursos financeiros destinados à ampliação da produção.

2. Criam empregos já durante a construção das fabricas e depois, ao produzirem e negociarem. Esses empregos são geradores da demanda.

3. Internam dólares quando exportam, gerando superávit crescente de dezenas de bilhões de dólares que fortalecem nossas reservas, ajudam a pagar os juros da divida externa e compensam — isto é extremamente importante — a falta de investimentos diretos externos, que estagnaram nos últimos anos em valores irrisórios, da ordem de US$ 13 bilhões.

Exportar sempre e mais é, neste momento, o único caminho aberto para que a economia nacional possa manter uma taxa de crescimento necessária ao sustento do País.Argumenta-se que não cabe ao governo a culpa de deixar o dólar desvalorizar-se, pois temos uma política cambial de livre oscilação. A culpa — lê-se na imprensa nacional — principal da queda deve-se ao fato de que os exportadores estão vendendo no mercado interno quantidades maiores de dólares decorrentes de suas receitas de exportações. Se os exportadores vendem seus dólares é porque precisam transformá-los em reais e financiar a produção do que pretendem exportar logo adiante. E aqui deveria entrar a autoridade monetária criando condições para que o exportador pudesse reter seus dólares. O empresário que mostrou vigor, coragem e competência, soube exportar e deve continuar fazendo-o, desde que as autoridades monetárias criem condições para que ele não se automutile vendendo internamente os dólares.

Juros e Câmbio

Não foi apenas a entrada excessiva de dólares que derrubou o câmbio. Os juros elevados também tiveram e continuam tendo um papel preponderante permitindo arbitragem e lucros crescentes. Mas, no caso dos juros, há sempre o argumento, mesmo que discutível, de conter a inflação embora ela não seja provocada pelo excesso da demanda.

O ideal seria uma política de juros menores e liberdade de ação para que as empresas exportadoras não fossem obrigadas e desfazer-se de sua receita cambial para atender à demanda diária de capital de giro, compra de matéria prima, investimento e produção. Esse é um desafio para 2006.

Este ano é político e, portanto, difícil para a economia. Tende a ser dominado por imponderáveis e imprevisões. Haverá pressões para gastos, concessões fáceis e o renascimento mais forte das ideologias anticapitalistas, antimercado e nacionalistas que estão nas principais origens do atraso brasileiro nestas últimas décadas em relação a outros países mais abertos — e um até comunista, a China — que se abriram amplamente para o capital estrangeiro. Mas, ao mesmo tempo, o Brasil inicia o ano com a casa em ordem, déficit transformado em superávit, e num cenário externo que poderá permanecer positivo ainda por algum tempo. Não há nenhum sinal no horizonte externo que nos faça prever mudanças bruscas, a não ser as ameaças de ataques terroristas que afetem duramente os grandes centros petrolíferos que, infelizmente, se localizam no Oriente Médio, centro do terror.

Nesses cenários, pode-se afirmar que o Brasil tem condições de enfrentar os distúrbios provocados pelos fatos políticos. Seria melhor se eles não existissem, pois estamos ainda a meio caminho de uma política econômica auto-sustentável, que começou com a ordenação relativa das contas internas, da tentativa de redução de uma divida de quase R$ 1 trilhão, 50% do PIB, do equacionamento e significativa da divida externa.
Se comparado com a situação de três anos atrás, quando da posse do atual Governo, esse cenário é menos turbulento e está em desalinho com a onda de reclamações injustificadas diante de um PIB que não cresceu como se previa. É preferível que o Brasil mantenha uma taxa menor de crescimento, mas sustentável, do que dê saltos que acabem redundando em recuos frustrantes e desânimos injustificáveis.
Sem duvida, seria melhor se não se registrassem turbulências políticas, mas o importante é saber administrá-las com os instrumentos que a política econômica hoje dispõe. E eles serão suficientes se não forem desmontados por uma classe política ávida de fatos imediatos que sopram forte, mas tem a fugaz duração do vento que passa.


 

 


Alberto Tamer is an economic journalist. Living in London and Paris, he writes a column on international economy for the “O Estado de S. Paulo” newspaper.


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