Surpresa! Surgiram empréstimos problemáticos. O verdadeiro dilema, contudo, é o fato de que empréstimos problemáticos muitas vezes aparecem inesperadamente. Todas as instituições necessitam de um bom sistema de alerta antecipado para identificar problemas em potencial, enquanto ainda podem ser solucionados. Funcionam, concomitantemente, nos bancos bem-sucedidos, um processo macro e outro micro, para evitar pesadelos a seus funcionários. A verdade é que um sonho agradável pode se tornar um pesadelo ao ser invadido por uma recente reunião do comitê de crédito e receber o choque de uma inesperada perda no ativo de seis dígitos, capaz de pegar de surpresa você e o resto do grupo. Já acordado e suando frio, você tenta imaginar o que poderá estar oculto nas profundezas de sua carteira de empréstimos, esperando para dar continuidade aos seus surtos de insônia na próxima semana ou no mês que vem — ou ambos. O que fazer para cuidar das olheiras, que estão cada vez mais profundas? Embora os comprimidos para dormir possam ser uma solução temporária, um sistema de identificação antecipada de empréstimos problemáticos é a maneira mais eficaz para garantir uma boa noite de sono. Muitos bancos tendem a adotar uma abordagem reativa ao gerenciamento de empréstimos problemáticos. Mas é preciso ter um sistema pró-ativo de alerta antecipado, incorporado à estratégia geral de gerenciamento de risco para prevenir atrasos, perdas, penhora de imóveis e baixas. Em nenhum momento, nos últimos 10 anos, foi tão importante, quanto o é hoje, ter um sistema eficaz de alerta antecipado. Os empréstimos problemáticos estão crescendo em todos os setores, como mostra a Figura 1. Figura 1 Em uma carta enviada à RMA Associates, Al Sandborn — o então presidente CEO da RMA — foi alertado de que os problemas poderiam piorar ao invés de melhorar. “Acredito que o nível de empréstimos problemáticos, de perdas de juros e de provisionamento aumentará pelo menos nos próximos anos”, avisou Sandborn. “Além disso, muitos dos problemas estruturais ainda estão por se manifestar, nas demonstrações de resultados e nos balanços das empresas — e, provavelmente, isso acontecerá entre os próximos seis e nove meses.” Sandborn recomendou diversas medidas para lidar com o nível crescente de risco, provocado por uma economia enfraquecida, por um mercado de ações em dificuldades e pela perda de confiança dos consumidores e dos investidores. Uma delas foi implementar um sistema para identificar, antecipadamente, problemas em potencial. “A alta administração deve comunicar a necessidade premente de identificar precocemente os problemas”, disse. Benefícios dos Sistemas de Alerta Antecipado Além de evitar noites de insônia, um sistema bem definido de alerta antecipado proporciona os seguintes benefícios: > Abre a oportunidade de aconselhar com antecipação o devedor. Ao identificar os problemas antecipadamente, os bancos muitas vezes podem conduzir o devedor ao caminho correto antes que ele atinja um ponto sem retorno. > Impede que o banco “coloque dinheiro bom sobre dinheiro ruim”. Muitas situações de perda resultam de segundas e terceiras concessões de crédito para “capital de giro”, e não dos empréstimos originais, bem garantidos e corretamente estruturados. > Oferece a oportunidade de reforçar a posição de garantia real. Ao lidar com uma situação, antes que a empresa quebre, o devedor pode ter condições e disposição para oferecer maiores garantias reais, sejam da empresa ou suas próprias. > Permite corrigir erros de documentação. Os bancos podem localizar e corrigir erros de documentação, enquanto a empresa devedora ainda for viável, mas terá que tentar agir com os documentos de que dispõe, se a empresa fechar as portas. > Cria maiores chances de sucesso quando pede ao devedor que mude de banco. Um bom sistema de alerta antecipado cria a possibilidade de pedir ao devedor que encontre outro provedor de crédito, antes que a empresa se torne inaceitável. > Oferece a oportunidade de reprecificar o relacionamento de acordo com o risco. À medida que o risco de um relacionamento aumenta, o banco deve ajustar, proporcionalmente, o preço; oportunidades de reprecificação, muitas vezes, passam despercebidas, quando não há um bom sistema de alerta antecipado. > Minimiza as surpresas no âmbito interno. Uma das surpresas mais desagradáveis que um executivo de banco pode ter é tentar explicar como um devedor passou de um relacionamento de risco aceitável para uma perda do over-night. > Provoca reações positivas dos reguladores. Um bom sistema de alerta antecipado melhora, significativamente, a credibilidade do banco perante os fiscais, o que pode ser muito útil quando é preciso discutir possíveis créditos com Observação Especial que o banco tenha classificado como “aprovados”. > Reduz o número total de empréstimos problemáticos. Embora um reduzido número de empréstimos problemáticos comece com um processo sólido de subscrição, um bom sistema de alerta antecipado reduz atrasos, perdas de juros e penhora de imóveis. > Melhora o LPA. Muitas baixas resultam não de problemas de subscrição, mas da falta de identificação de mudanças no perfil de risco de um relacionamento; a identificação precoce de problemas em potencial reduzirá as baixas, elevará os lucros e manterá os acionistas mais felizes. O Processo Macro Para que o sistema de alerta antecipado de um banco seja eficaz, é preciso que exista, antes de mais nada, o sistema. Cabe aos administradores de risco mais graduados do banco estabelecer um plano de detecção precoce. O processo macro deve incluir oito componentes. 1. Processo de revisão de empréstimos. Todo banco deve ter seu próprio processo interno de revisão sistemática da carteira de empréstimos. Muitos bancos confiam, em essência, nos fiscais reguladores e em empresas de contabilidade, durante a auditoria anual, como as únicas fontes reais de revisão de empréstimos. Entretanto, surpreendem-se quando uma baixa considerável os pega desprevenidos, entre uma fiscalização e outra, ou entre uma auditoria anual e outra. São três as principais maneiras de rever os empréstimos: > Revisão periódica de todas as carteiras, por um departamento especializado. > Existência de um sistema de comitê (que não deve ser confundido com o sistema de aprovação de empréstimos). > Terceirização para uma empresa de consultoria de crédito. Independentemente do método escolhido, todos os bons sistemas de revisão de empréstimos compartilham as mesmas características. Em primeiro lugar, o sistema conta com forte apoio da alta administração. Segundo, condiz com os padrões aplicados a todos os relacionamentos, em todas as regiões. Terceiro, é periódico, com realização regular de revisões. E quarto, inclui um ponto de corte (por exemplo, todos os relacionamentos que excedam US$ 250 mil) que faça com que a maior parte da carteira seja revista sistematicamente. 2. Informações financeiras atualizadas. É difícil identificar, precocemente, problemas em potencial ,se as informações financeiras utilizadas forem antigas. E, ainda, não basta uma política que exija atualização anual das demonstrações financeiras dos devedores e fiadores. Por quê? Porque a maioria das pessoas só cumpre as condições que podem ser fiscalizadas. Todos os bancos deveriam ter um sistema automatizado de acompanhamento de demonstrações antigas, com um limite de tolerância que não ultrapasse 10%. 3. Sistemas de graduação de risco. Um sistema bem definido de graduação de risco é obrigatório para qualquer banco que queira implantar uma estratégia geral e eficaz de gerenciamento de risco de crédito e um sistema de alerta antecipado. Deve ser dada mais atenção aos segmentos de maior risco da carteira, com a tomada de medidas pró-ativas de gerenciamento de empréstimos problemáticos antes que os relacionamentos se deteriorem demais. Graduações de risco bem definidas devem apresentar granulação suficiente, para que se possa estabelecer diferenças entre graduações crescentes de risco. Um bom sistema incluirá, pelo menos, cinco graus dignos de aprovação, indo de baixo risco (por exemplo, empréstimos garantidos ou empresas high-investment-grade) ao mais alto risco inicial aceitável (como empresas altamente alavancadas, mas lucrativas ou que tenham balanços sólidos, mas estejam passando por problemas temporários de fluxo de caixa). As notas de reprovação costumam seguir a seguinte ordem: Atenção, Observação Especial (algo que as autoridades fiscalizadoras possa ajudar a definir), Abaixo do Padrão, Duvidosos e Perda. As definições do nível de risco devem basear-se numa avaliação de fatores, como análise quantitativa do balanço, demonstração de resultados e fluxo de caixa, comparações intra-setoriais, risco do setor, condições econômicas, qualidade da administração e processo sucessório, aval e flexibilidade financeira. A maioria dos bancos atribui notas a relacionamentos em geral, mas alguns as atribuem apenas a operações individuais. Com um sistema eficaz de graduação do risco, os bancos poderão identificar problemas em potencial, durante a administração rotineira da carteira, no processo de aprovação de empréstimos e na realização de revisões. 4. Gerenciamento de atrasos. Ao verificar o relatório de atrasos do ano anterior, provavelmente será encontrada a maioria dos novos relacionamentos problemáticos do ano corrente. Há três maneiras de utilizar relatórios antigos de atrasos, para minimizar problemas futuros. > Elimine devedores considerados “pagadores com atrasos”. Muitos devedores, financeiramente sólidos, adquirem o hábito de esperar 20 ou 30 dias ou mais para efetuar os pagamentos de seus empréstimos. Os gerentes de conta devem ser incentivados a explicar a esses devedores a importância de pagar pontualmente. > Aja rapidamente em relação a devedores que são transportados no final do mês para o seguinte, por apresentarem 30 dias de atraso ou mais. Se seu devedor entrar no relatório de atrasos do mês, descubra o porquê. Pode haver uma boa explicação, mas muitas vezes é o começo de um problema de longo prazo. E se o mesmo devedor for novamente transportado no mês seguinte, provavelmente será uma boa hora para tomar medidas para proteger o banco, antes que seja tarde demais. > Use o relatório durante o mês inteiro. Muitos bancos cometem o erro de lidar apenas com os devedores, lançados com 30 dias de atraso ou mais, no fim do mês. Mas, também, é preciso prestar atenção aos devedores que se aproximam da marca dos 30 dias ou mais ou a superam no décimo, décimo quinto ou vigésimo dias do mês. 5. Monitoramento de violações das condições mínimas do empréstimo. As condições mínimas somente serão eficazes se forem monitoradas. As condições financeiras e não-financeiras devem ser razoáveis e monitoradas periodicamente (trimestral ou anualmente, em geral). As condições mínimas podem ser monitoradas segundo os parâmetros locais ou em base centralizada.
6. Lista de alerta (Watch List). Mais do que uma simples ferramenta para agradar as autoridades fiscalizadoras, a watch list — lista de valores mobiliários separados para inspeção especial — é um componente vital de qualquer sistema de gerenciamento de risco. Ela deve incluir todos os relacionamentos classificados como Observação Especial (alguns bancos também incluem os relacionamentos classificados como “Alerta”). A lista deve ter um valor de corte mínimo para manter-se concisa. E deve ser revista com freqüência (em geral mensalmente) e gradualmente, dando-se atenção especial à migração de risco. Por definição, a lista de alerta incluirá relacionamentos que já tenham sido identificados como problemáticos. Quanto maior a pró-atividade do banco na inclusão de relacionamentos na lista de inspeção, maior será sua utilidade para o sistema de alerta antecipado. Os gerentes de concessão e gerenciamento de empréstimos devem ser incentivados a colocar relacionamentos deteriorados na lista, ao invés de adotar uma abordagem do tipo “esperar para ver o que acontece”. Caso contrário, esperar-se-á demais, podendo verificar-se uma perda imprevista que poderia ter sido minimizada ou evitada. 7. Recursos internos. Em muitos casos, a maior falha cometida por um banco no gerenciamento de risco é deixar de pedir ajuda. Isso se aplica tanto ao processo de subscrição quanto ao gerenciamento de carteira. Os encarregados devem ser incentivados a procurar ajuda de colegas e da Administração de Créditos, sempre que acreditem ter encontrado problemas, mesmo que a exposição do relacionamento esteja sob a sua responsabilidade. Uma segunda opinião objetiva, freqüentemente, ajuda a encontrar problemas em potencial, em seu estágio inicial, quando o banco e o devedor ainda podem evitar um desastre. No mesmo sentido, os credores não devem hesitar em envolver especialistas, quando for o caso. Transferir uma empresa para o departamento de crédito com garantia real, muitas vezes ajuda a minimizar um problema antes que ele estoure. E muitos bancos dedicam Gerentes de Créditos Problemáticos a relacionamentos dos tipos “Alerta” e “Observação Especial”, para reabilitar o crédito antes que seja tarde demais. 8. Recursos externos. As empresas muitas vezes passam por problemas financeiros, não ocasionados pela má administração, mas por crises que afetam o setor a que pertencem ou pela redução de atividades econômicas regionais ou nacionais. Os credores devem estar sintonizados com as tendências setoriais e econômicas para identificar relacionamentos potencialmente problemáticos. A RMA oferece uma ampla gama de material de referência setorial e econômica. Os bancos também podem acompanhar forças externas, por meio da subscrição de publicações especializadas dos setores (por exemplo, revistas dirigidas ao setor têxtil ou de construção) e publicações econômicas regionais, da participação em programas e seminários promovidos pela RMA e outros, e por meio de contatos com outros bancos. Não deve ser esquecido um dos mais antigos e eficazes métodos de acompanhamento de tendências setoriais — contato constante com o devedor. O Processo Micro Um eficaz processo macro de detecção antecipada de problemas fundamenta-se em um efetivo sistema de gerenciamento de relacionamentos entre o gerente e o devedor. O sistema de alerta antecipado deve incluir gerenciamento micro dos seguintes pontos: > Contatos freqüentes com os devedores. Dada a ênfase da totalidade do setor no crescimento, os bancos tendem a concentrar-se muito mais em vendas do que no gerenciamento do risco ao manterem contato com os clientes. Mas vendas e gerenciamento de risco devem caminhar paralelamente. Os credores devem perguntar “Como se comporta o setor?” A seguir, necessitam documentar o conteúdo da conversa. A documentação ajuda o banco a acompanhar as tendências referentes ao devedor e facilita a vida das outras pessoas envolvidas no processo de gerenciamento de risco. > Contas correntes. Casos freqüentes de insuficiência de fundos ou saldos negativos são, muitas vezes, o prelúdio de problemas de crédito. É fundamental que a equipe das agências comunique casos de insuficiência de fundos aos diretores de crédito. > Suspeita de criação de situações artificiais de mercado. Devedores astuciosos, às vezes, procuram ocultar problemas de fluxo de caixa subtraindo alguns dias extras de float, mas essa prática sempre acaba se revelando. No caso de cheques contra fundos ainda não disponíveis é preciso verificar se o fato é do conhecimento dos outros gerentes. > Problemas de CDC e crédito rotativo. Se o proprietário de uma empresa começar a aparecer em listas de atraso de crédito direto ao consumidor e crédito rotativo, provavelmente, será um sinal da existência de problemas. > Pedidos freqüentes de empréstimos “urgentes”. É necessário redobrar a atenção com devedores que precisam, freqüentemente, de “capital de giro”. O banco pode estar, inadvertidamente, financiando prejuízos, folha de pagamento, contas a receber impossíveis de cobrar ou estoques encalhados. > Grandes mudanças de estilo de vida do proprietário da empresa. Quando uma geração entrega a administração da empresa à geração seguinte, é preciso ficar alerta. Muitas vezes, a morte ou aposentadoria do proprietário original pode levar a problemas graves, se a empresa for assumida por seus filhos, por parentes ou por outros sócios. > Alterações significativas do ciclo de negócios. Queda do ritmo das contas a receber, dos dias de estocagem ou dos dias de pagamento é sinal de alerta. É, no ciclo de negócios, que se percebem os primeiros problemas financeiros. Se forem notadas, com antecipação, essas mudanças, é muito menos provável ser surpreendido por uma grande baixa de contas a receber ou por um problema causado pela obsolescência dos estoques. > Outros credores. É vital conhecer a situação financeira total do devedor. Por isso, deve-se prestar atenção às atividades dos outros credores. Informações sobre os fatos podem ser encontradas em arquivos do Uniform Commercial Code (UCC), em cartórios de imóveis (segunda hipoteca) e em arrestos fiscais. > Recursos externos. Relatórios de credit bureau e ratings, muitas vezes, apontam problemas antes que eles se tornem óbvios. Tome nota se perceber uma grande queda do Beacon Score do proprietário da empresa ou do rating D&B da empresa propriamente dita. Na conferência Anual de 2000 da RMA, realizada em Nashville, citou-se a presidenta do FDIC, Donna Tanoue, como tendo dito que, “confiança não é uma estratégia de gerenciamento de risco”. Sem um bom sistema de alerta antecipado, os bancos estão exigindo um pouco mais do que confiança para manter uma qualidade aceitável de crédito. Não importa o tamanho da instituição: um bom sistema de identificação antecipada de crédito problemático é fundamental para o sucesso total da gestão do risco. Gerenciamento eficaz de risco significa melhor qualidade de crédito, maiores lucros e noites bem dormidas. Bons sonhos...
© 2001 RMA.J. Tol Broome Jr. é vice-presidente sênior da BB&T. Tol Bromme pode ser contatado por e-mail no endereço Tbroome@BbandT.com
A RMA - Risk Management Association é uma associação internacional de serviços financeiros profissionais. Para informações, e-mail acauley@rmahq.org ; Para assinar The RMA Journal visite o site www.rmahq.org/ed_opps/pubs/journalad.htm

A maioria dos bancos usa um sistema de planilhas, para registrar as condições e o atendimento durante o ano. Em caso de infração, os gerentes de concessão e de gerenciamento do crédito são informados, criando uma oportunidade de comunicação com o devedor, para saber o motivo da falta de observação aos itens do contrato. Se o motivo for aceitável, a condição pode ser relevada. Mas, se houver indícios de dificuldades, o banco pode tomar medidas para atenuar o risco, ajustar a precificação ou encerrar o relacionamento.