Vários países emergentes apresentam níveis insatisfatórios de oferta de crédito. Entre outras razões, isso decorre da insuficiência ou ausência de informações acerca dos tomadores em potencial. É o problema da assimetria de informação, comum a vários mercados, especialmente ao de crédito. Uma das maneiras de lidar com o problema é o compartilhamento de informações por meio de bureaus especializados. Entretanto, a implementação de um fluxo adequado de informações entre tomadores e financiadores se articula diretamente com o arcabouço jurídico-institucional de cada país, cuja configuração pode inibir ou incentivar a troca de informações. Há evidências empíricas sobre a maior eficiência de funcionamento do mercado de crédito, mensurada por volume, taxa de juros e inadimplência, em um ambiente de maior compartilhamento de informações. Além disso, a utilização dos bureaus melhora a capacidade preditiva dos modelos de inadimplência, aprimorando a qualidade da gestão de risco de crédito das instituições bancárias. Este trabalho procura discutir o assunto acima à luz de formulações teóricas e evidências empíricas. O primeiro subtítulo trata da importância do mercado de crédito para o desenvolvimento econômico, ressaltando os desafios impostos aos países emergentes. O segundo subtítulo apresenta as principais formulações teóricas sobre o tema. No terceiro subtítulo são discutidos os pontos críticos para o efetivo funcionamento de um ambiente intensivo em compartilhamento de informações e o quarto apresenta as evidências empíricas para diversos países. Para concluir, são feitos comentários sobre o tema. Desafios do Sistema Financeiro em Países Emergentes Uma questão fundamental para os países emergentes é o financiamento do desenvolvimento econômico. Ou seja, para superar o gap histórico de desenvolvimento é preciso financiar o investimento. Daí o papel imprescindível a ser desempenhado pelo sistema financeiro de cada país. Estudos acadêmicos recentes, como Bordo e Flandreau (2001), mostram a importância do fortalecimento e do grau de sofisticação dos sistemas financeiros locais para o alcance (catch-up) do primeiro mundo. Talvez o mais relevante dos obstáculos seja aprimorar os mecanismos que permitem um funcionamento eficiente do mercado de crédito. Os números relativos ao volume de crédito/PIB, mostrados abaixo, evidenciam o baixo grau de alavancagem em crédito de alguns países emergentes, particularmente do Brasil. Paradoxalmente, nos mercados nos quais os recursos deveriam ser abundantes, há escassez. Por que isso ocorre? Uma das razões diz respeito à lenta reação do sistema bancário e das autoridades regulatórias frente às inovações tecnológicas, como a maior rapidez de compartilhamento de informações sobre os tomadores. Essas inovações, por sua vez, se ligam aos avanços da gestão do risco de crédito, sobretudo pelo uso de modelos cada vez mais sofisticados de quantificação e administração de risco. Figura 1 As forças competitivas dos sistemas financeiros das economias emergentes sofreram grande alteração a partir da maior abertura dos mercados, no contexto da globalização da década de 90. Houve uma nítida alteração na escala economicamente rentável de cada instituição bancária. Basta examinar os processos de fusão e aquisição ocorridos nos últimos anos. Conforme Stein (2002), historicamente, os mercados emergentes e em transição caracterizavam-se por uma competição limitada, não havendo nenhuma pressão para a expansão rumo às parcelas não atendidas dos tomadores (“banks not under pressure to target the unserved”). Hoje, a busca de novos mercados é vital para a própria sobrevivência das instituições. A questão passa a ser a capacidade de desenvolver estratégias e habilidades que viabilizem essa expansão. Stein (2002) ressalta que as habilidades acima estão relacionadas, especialmente, ao mercado de pequenas e médias empresas e ao mercado de crédito à pessoa física. As grandes empresas têm acesso facilitado ao mercado de empréstimos, inclusive com spreads relativamente baixos(1). Portanto, o esforço de expansão deve estar direcionado à criação e ao aperfeiçoamento das estratégias, a fim de atender aos mercados middle, small e pessoa física. O aumento da produtividade nesses mercados envolve a redução do custo unitário por transação ou serviço aliado a uma oferta mais ampla de transações e serviços que incrementem a qualidade dos ativos. A redução do custo unitário pode ser obtida por meio do investimento em inovação tecnológica. Por exemplo, o uso de modelos de credit scoring para empréstimos em massa reduz o tempo de avaliação do tomador e o potencial de erros subjetivos. Além disso, a ampliação das transações e serviços envolve a adoção de estratégias de marketing rentáveis. A instituição deve avaliar o potencial econômico do mercado-alvo, assim como possíveis nichos específicos de atuação. Finalmente, a garantia de uma qualidade adequada dos ativos passa pelo constante investimento em gestão de risco. Por exemplo, a preocupação não deve limitar-se à qualidade dos ativos individuais, mas à carteira de crédito como um todo. Nesse sentido, modelos eficientes de credit rating constituem importante ferramenta de administração de risco. A obtenção desse novo patamar de produtividade envolve uma articulação entre bancos, instituições responsáveis por serviços de informação e autoridades monetárias/regulatórias. Os bancos atuam em um ambiente caracterizado por uma infra-estrutura financeira específica. Essa infra-estrutura disponibiliza informações de crédito pelas centrais ou bureaus(2), sendo o fluxo dessa informação regulado pelo governo, por intermédio dos órgãos competentes. O argumento central de Stein (2002) é que a expansão do acesso ao financiamento depende da capacidade de cada instituição financeira e das características do ambiente de informações de crédito, ou da infra-estrutura financeira. Do ponto de vista microeconômico, é importante uma combinação de competição individual entre os bancos e cooperação para compartilhamento de informações pelos bureaus de crédito. Figura 2 Em outras palavras, o deslocamento da fronteira de produtividade, conforme a figura 2, envolve uma dupla atuação: sobre as instituições financeiras e sobre a infra-estrutura de mercado. A existência de compartilhamento de informação entre os bancos e a maneira pela qual ele ocorre têm papel fundamental para o grau de desenvolvimento do mercado de crédito. As formas tradicionais de troca de informação envolvem instituições públicas (public registries), agências de rating, bureaus de crédito comercial e bureaus de crédito pessoa física. Como as agências de rating têm um enfoque muito mais voltado para o mercado de grandes empresas, para as quais a demanda por empréstimos se encontra relativamente atendida, o cerne da discussão envolve os bureaus de crédito cujo foco volta-se para os mercados small, middle e pessoa física. Em pesquisa com bancos latino-americanos, Stein (2002) ressalta que a informação dos bureaus é relativamente mais importante para a decisão de crédito do que as garantias (colateral), a situação financeira do tomador e o histórico de relacionamento com a instituição. Credit Reporting e a Teoria da Informação Assimétrica Stein (2002) deixa evidente a importância do compartilhamento de informação para o bom funcionamento do mercado de crédito. A existência de um bureau visa ao fornecimento, para os bancos, de informações capazes de incrementar o poder preditivo sobre a qualidade de crédito dos tomadores, uma vez que o mercado de empréstimos é notadamente marcado por diferenças ou falhas nos níveis de informação entre tomadores e fornecedores de recursos. Os estudos sobre essas possíveis falhas nos diversos mercados têm mostrado resultados bastante interessantes, tendo, inclusive, propiciado o prêmio Nobel de economia de 20013 a três pesquisadores da chamada “teoria da informação assimétrica”. Formalmente, a assimetria de informação ocorre quando, em meio a uma transação econômica, um dos agentes envolvidos detém alguma informação de maneira exclusiva. Por exemplo, uma empresa que deseja um empréstimo tem melhor nível de informação sobre sua própria saúde financeira do que o banco ao qual recorre. São dois os tipos de informação assimétrica, conforme sua ocorrência antes ou depois das transações econômicas: i) ex-ante ou a priori, mais conhecida como seleção adversa, e ii) ex-post ou a posteriori, chamado risco moral. O surgimento dos bureaus de crédito procura lidar com a falha de mercado acima. Do ponto de vista teórico, os efeitos da troca de informação, via bureaus, podem ser, genericamente, classificados em três grupos. O primeiro diz respeito à melhor capacidade de previsão da probabilidade de inadimplência, advinda de um nível maior de aprendizado sobre as características dos tomadores. O segundo liga-se a um incremento na competitividade entre os bancos e os efeitos sobre os preços dos empréstimos. Por último, a troca de informação desempenha papel relevante como mecanismo de disciplina dos que recorrem a empréstimos, ou seja, tem efeito sobre a estrutura de incentivos de repagamento do tomador. Obviamente, em todos os modelos teóricos, o incentivo ao compartilhamento ou à troca de informações pelos bancos se dá a partir das expectativas de maior lucro ajustado ao risco esperado. Nenhuma instituição compartilhará, espontaneamente, informação, se não vislumbrar ganhos, principalmente pela perspectiva dos concorrentes terem acesso aos dados do bureau. Pagano e Japelli (1993) consideram que o mercado é afetado pela possibilidade de seleção adversa e a troca de informação melhora a qualidade dos tomadores, reduzindo as taxas de default e de juros cobrados. Os volumes de crédito, entretanto, dependerão da estrutura do mercado e da política de maximização de preços adotada. Mais precisamente, se bancos monopolistas promoverem discriminação de preços, pode haver uma redução de empréstimos para tomadores de alto risco não contrabalanceada por um aumento de operações com tomadores de baixo risco. Quando há competição, tende a haver mais operações de crédito e os bancos diminuem suas margens de lucro. No caso de risco moral, Padilla e Pagano (1997) prevêem que a troca de informações restritivas (negativas) altera os incentivos dos tomadores, numa espécie de mecanismo de disciplina, o que diminui as taxas de default, reduz os juros cobrados e aumenta o volume de crédito. No modelo de Pinheiro e Moura (2001), ocorrerá somente troca de informações restritivas, porque, ao contrário de Pagano e Japelli (1993), não haverá benefício de melhor localização ou qualquer outro tipo de vantagem inicial de informação. Mais explicitamente, os primeiros supõem que a manutenção dos lucros dos bancos no mercado middle dependerá do acesso a informações privilegiadas e o bureau funcionará como forma de aumentar as chances de cumprimento dos contratos das operações, ou seja, de repagamento. Em suma, os principais resultados são os seguintes: i) os bureaus melhoram a capacidade dos bancos de inferir corretamente as probabilidades de repa-gamento dos tomadores, atenuando o problema da seleção adversa. Logo, maiores serão as vantagens de um bureau quanto maior for a mobilidade geográfica dos tomadores; ii) pode haver aumento no volume de crédito concedido; iii) os bureaus reduzem os excedentes advindos das vantagens informacionais detidas pelos bancos, permitindo um maior retorno líquido do to-mador, ou seja, as taxas de juros cobradas (spreads) caem; iv) se os bureaus estão ativamente informando ao mercado as restrições e os defaults, o tomador tem maior incentivo para repagamento e, conseqüentemente, aumenta o nível de esforço para o sucesso nos seus projetos, o que diminui as taxas de default. Pontos Críticos para o Compartilhamento de Informações A discussão teórica deixa claro que o compartilhamento de informações representa a melhor solução coletiva para a assimetria da informação. Além disso, a existência de um mecanismo formalmente estabelecido, caso de um bureau de crédito, ao determinar e fazer cumprir regras de funcionamento, principalmente no que diz respeito às sanções e punições para comportamentos desviantes, pode contornar os eventuais problemas de coordenação entre os players de mercado, reduzindo custos de transação e explorando os ganhos de escala relativos à coleta e à distribuição da informação. Para os bancos em geral, o incremento da capacidade preditiva pelo uso da informação permite reduzir as taxas de inadimplência e, ao mesmo tempo, aumentar as taxas de aceitação (acceptance rate) dos tomadores. Ou seja, diminui a proporção dos bons tomadores que ficarão sem crédito por terem sido erroneamente rejeitados. Conforme BARRON e STATEN (2001), … “by facilitating risk-based pricing, credit bureau data has made a wide range of credit products available to millions of households who would have been turned down as too risky just a generation ago”… (... “ao facilitar a precificação baseada em risco, as informações dos bureaus de crédito disponibilizam uma gama variada de produtos de crédito para milhões de tomadores que não seriam aceitos há alguns anos por serem considerados empréstimos de risco demasiadamente elevado”...). A combinação de fatores acima é extremamente benéfica do ponto de vista macroeconômico, produzindo, simultaneamente, uma expansão no volume de crédito e uma menor taxa de juros cobrada, dado o menor custo da inadimplência. Não obstante a visível vantagem coletiva associada ao compartilhamento de informação, há alguns pontos críticos que merecem ressalva, especialmente nos países emergentes: · Propensão individual à troca de informação — A abordagem teórica demonstra que as vantagens coletivas não significam, necessariamente, vantagens individuais. Do ponto de vista econômico, a disposição para a troca de informação constitui claramente um trade-off. Haverá ganhos advindos da utilização das informações de terceiros, contudo, as informações detidas por instituição perderão a exclusividade ou o monopólio. Há dois fatores básicos condicionando essa propensão. O primeiro é a possibilidade de ganhos de escala que podem ser obtidos pelos bureaus. Ou seja, a centralização das informações do mercado pode gerar um menor custo marginal para reunir informação(4). O segundo fator diz respeito à possibilidade de algumas instituições explorarem suas próprias capacidades de processar a informação obtida externamente, isto é, usá-la de maneira mais eficiente, o que seria mais do que garantir o monopólio de seu próprio banco de dados. · Controle público ou privado do bureau — Os arranjos institucionais para a troca de informação variam significativamente de país para país. A distinção básica diz respeito ao controle do bureau. Qual seja, trata-se de um órgão constituído e controlado pelo governo ou um arranjo espontaneamente estabelecido pelas instituições atuantes no mercado? O primeiro caso, de acordo com levantamento de Japelli e Pagano (1999), ocorre geralmente naqueles países caracterizados por um nível de proteção aos direitos do credor relativamente baixo. A diferença básica entre os dois tipos de controle é a cobertura e o grau de detalhamento da informação. Conforme os autores acima, “... the key difference from credit bureaus is that participation in the PCR is compulsory and its rules are not contracted but imposed by regulation…this implies a second important difference, namely that PCRs have universal coverage…credit bureaus are less complete in coverage but offer details on individual loans and merge credit data with other data… ” (“A diferença fundamental dos bureaus privados é que no PCR (public credit registry) a participação é compulsória e as regras vigentes não são espontaneamente estabelecidas, mas impostas por regulação... isso se relaciona a uma segunda diferença importante, a saber, os PCRs têm cobertura universal do mercado... os bureaus privados são menos completos em termos de cobertura, mas oferecem detalhes sobre empréstimos individuais e agregam informações de crédito com outros tipos de informação...”). A compulsoriedade do fornecimento de informação ao bureau público pode ampliar a cobertura, mas tem menor flexibilidade e, possivelmente, menor capacidade de inovação do que os bureaus privados. Por exemplo, na consolidação da informação (ramos, segmentos etc.) ou no tratamento estatístico que pode ser efetuado como ferramenta adicional para posterior uso no processo decisório de crédito. > Aparato legal e regulatório — Com o avanço tecnológico e a conseqüente redução dos custos de transação, um dos principais empecilhos ao papel dos bureaus diz respeito ao aparato legal vigente. As preocupações relacionadas à proteção da privacidade do consumidor podem limitar severamente o escopo de atuação dos bureaus. Por exemplo, os tipos de informação sobre os tomadores podem, basicamente, ser classificados em dois grupos: i) informações restritivas, mostrando os atrasos, perdas etc. e ii) informações positivas, mostrando os pagamentos efetuados, posições nos bancos etc. Em alguns países, são impostas limitações à circulação de informações positivas sobre os tomadores. É o caso de alguns países da Europa continental e da América Latina, onde, geralmente, é permitido apenas o compartilhamento das informações restritivas. Países anglo-saxões, em grande parte, permitem a veiculação dos dois tipos de informação (full reporting environment). A importância do aspecto legal é ressaltada por BARRON e STALEN (2001) como uma das razões para o vertiginoso crescimento do mercado de crédito americano nos últimos anos(5). Os autores destacam o papel das regras legais que permitiram a reunião e a distribuição de dados pessoais de crédito para aqueles tomadores cuja requisição gerasse o que se chama “propósito autorizado”. Além disso, as informações de crédito puderam ser legalmente utilizadas para pré-aprovar ofertas de crédito, sem nenhuma requisição formal por parte do tomador potencial. A legislação americana procura equilibrar o binômio privacidade do consumidor/necessidade de informação para aprovar crédito. Interpreta-se que, a fim de obter o benefício do crédito, o tomador deve abrir mão, até determinado ponto, de alguma privacidade sobre seus dados. Conforme os autores acima, “... loss of some privacy is the price of participating and enjoying the benefits of an information-intensive economy”… (“a perda da privacidade é o preço para participar e gozar os benefícios de informações econômicas completas”). O marco legal para equilibrar o binômio acima é o U.S. Fair Credit Reporting Act (FCRA). Ele prevê que os bureaus podem elaborar reports cujo conteúdo limite-se a informações fatuais e pertinentes ao histórico de crédito do tomador. Além disso, os reports podem ser distribuídos para propósitos permitidos, cuja definição relaciona-se às transações de crédito voluntariamente iniciadas pelo tomador. A idéia é que somente a iniciativa do tomador torne possível a abertura de informações relevantes para a transação desejada. Uma das maneiras de garantir o cumprimento dos propósitos permitidos é o armazenamento de todas as requisições e os nomes e endereços dos que receberam reports por, no mínimo, dois anos. Essas medidas também asseguram a precisão das informações, uma vez que o tomador pode checar os dados divulgados sobre si mesmo. A despeito do que foi dito anteriormente, ainda se discute, no âmbito da legislação americana, a adoção de leis que restrinjam a circulação das informações de crédito (opt-in laws). Examinando o impacto dessas leis, Cate e Staten (2002) estudaram a MBNA, segunda maior empresa emissora de cartões de crédito dos EUA, com mais de 51 milhões de clientes e uma carteira de US$ 89 bilhões. A MBNA caracterizou-se por uma expansão da clientela baseada no uso intensivo de informações, a fim de identificar potenciais clientes. Sem uma extensa rede física de escritórios, a empresa compra informação de terceiros e reúne informação de suas afiliadas para enviar propostas de cartões de crédito e outros produtos. A vantagem competitiva da MBNA parece ser exatamente a rapidez e a eficiência no uso das informações, principalmente como forma de segmentação de mercado. Em outras palavras, as leis e regras opt-in podem até neutralizar os ganhos de produtividade obtidos com os avanços da tecnologia da informação. Conforme Cate e Staten (2002), com as opt-in laws, a MBNA teria como principais pontos negativos: > A estratégia de identificar clientes potenciais e customizar produtos (afinidade) seria inviável. A empresa teria sua capacidade de percepção das características de grupos pessoais e associações praticamente aniquilada. > Mais oferta para clientes não qualificados e menos oportunidades para clientes qualificados, como conseqüência das limitações acima. > O aumento nos custos de aquisição da informação provocaria um menor fluxo de receita. Com opt-in o custo de aquisição aumentaria 22% por conta, e os lucros cairiam 8% nos primeiros cinco anos de experiência. > Aumentaria o risco de fraude uma vez que o uso da informação para diversos propósitos comerciais torna economicamente viável investir grande soma de recursos em tecnologias antifraude. > Oferta reduzida de produtos financeiros e maior taxa de juros. Ou seja, os impedimentos criados para compartilhamento de informações podem reduzir a competitividade. O próprio Federal Reserve Board atribui à competição uma redução de 2,54% na taxa de juros dos cartões de crédito no período 1991-1994. Resultados Empíricos O interesse em estudar empiricamente os efeitos do compartilhamento de informações de crédito é recente. Como visto na seção 2, a abordagem teórica, embora não muito vasta, é mais antiga. É possível dividir os estudos empíricos conforme as abordagens tenham sido macro ou microeconômicas. Quando se fala em abordagem macroeconômica, os dados avaliados são, geralmente, agregados para a economia como um todo. Por exemplo, estudar a ligação entre a intensidade de informação produzida em termos nacionais e medidas agregadas de performance econômica (intensidade de compartilhamento de informações de crédito e volume de empréstimos pessoa física no Brasil). Abordagens microeconômi-cas baseiam-se em dados limitados a poucos agentes. Japelli e Pagano (1999) apresentam um painel comparando as características do mercado de crédito de diversos países, conforme a quantidade e a qualidade das informações compartilhadas. A qualidade aqui se refere ao tipo de informação veiculada, apenas restritiva ou restritiva e positiva. Os testes realizados envolveram volume de crédito ao consumidor, endividamento total e taxas de default. A intensidade de informação foi mensurada pelo tempo de existência do bureau, porcentagem da população sobre a qual existe registro, número de fichas de informação processadas a cada ano e tipo de informação contida nas fichas (protestos, inadimplências, operações liquidadas etc.). Os resultados mostram que o volume de crédito ao consumidor é cerca de três vezes maior nos países onde há troca de informações. Tanto para as variáveis (dummy), captando o tipo de informação, como para o número de anos de operação do bureau, a relação com o volume de crédito ao consumidor é positiva. O mesmo efeito se verifica quando o volume de crédito utilizado é o nível de endividamento total do setor privado. Gonzalez (2002) apresenta uma avaliação quantitativa do uso de informações externas no mercado de crédito brasileiro pelo teste de alguns modelos teóricos, incluindo Pagano e Japelli (1993), Padilla e Pagano (1997) e Pinheiro e Moura (2001). As variáveis utilizadas foram vendas mensais de bens duráveis, como proxy para volumes mensais de crédito pessoa física, e número mensal de consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). O autor mostra evidências de relação positiva entre essas duas séries, o que corroborava empiricamente argumentos centrais dos modelos. Barron e Staten (2001) apresentam estudo empírico bastante interessante. Ao contrário dos trabalhos mencionados anteriormente, a abordagem foi simular diversos ambientes de compartilhamento de informações e os efeitos sobre o poder preditivo dos modelos de credit scoring. A idéia era comparar diferentes países tendo o mercado americano, bastante intensivo em troca de informação, como benchmark. Os autores buscaram responder à seguinte pergunta: qual seria o impacto, em termos de poder preditivo de inadimplência para o mercado americano, da existência de um cenário onde houvesse restrição à atuação dos bureaus, por exemplo, permitindo apenas o compartilhamento de informações restritivas. Um modelo completo (full model) envolveria informações restritivas e positivas, enquanto um modelo incompleto limitar-se-ia às restritivas. Ou seja, para a construção deste último, são, simplesmente, retiradas as variáveis relativas às informações positivas, obtendo o melhor modelo possível a partir das variáveis remanescentes. A metodologia acima tem como referência o ambiente mais restrito de compartilhamento de informação existente na Austrália e na América Latina. Os modelos de credit scoring, utilizados para simulação, foram construídos somente com variáveis disponíveis nos bancos de dados dos bureaus (bureau-based models), no caso, o fornecedor foi a Experian, um dos três maiores bureaus americanos(6). Os modelos construídos são genéricos, uma vez que não se aplicam a carteiras específicas. As tabelas procuram extrair os efeitos de uma restrição ao compartilhamento de informações positivas, conforme legislação existente no mercado australiano. A amostra aleatória utilizada contém 312.484 pessoas físicas que abriram novas contas em maio de 97. Os modelos construídos visam a estimar a probabilidade de que uma nova conta, aberta naquela data, fique 90 ou mais dias em inadimplência, dentro de um horizonte de tempo de dois anos. Cada tomador potencial foi ranqueado de acordo com seu score. A partir daí, podem ser escolhidas diferentes taxas de aprovação (approval rates), comparando os desempenhos dos modelos completo e incompleto em termos de taxas de inadimplência. A tabela 1 mostra essa comparação(7). Para uma taxa de aprovação de 60%, por exemplo, a tabela 1 mostra que a utilização do modelo incompleto, contendo apenas informações restritivas, geraria uma taxa de inadimplência 76,3% maior. A tabela 2 examina o desempenho dos dois modelos no que diz respeito à disponibilidade de crédito para os consumidores. Os resultados da simulação mostram que, para uma taxa de default de 4%, o modelo completo aprovou 83,2% dos consumidores, enquanto o modelo incompleto aprova 73,7%. Essa redução de 11,4% significa que, para cada 100.000 demandas, o uso do modelo incompleto significa 11.400 empréstimos a menos. Tabela 1 Os resultados das tabelas 1 e 2 mostram que a restrição ao compartilhamento de informações de crédito produz simultaneamente um menor poder preditivo de inadimplência e uma menor disponibilidade de crédito. Em outras palavras, o custo do crédito tende a ser maior e os volumes de crédito menores. Claramente, a opção de limitar a atuação dos bureaus deve ser comparada com um mercado de crédito menor e operando a maiores taxas de juros. Tabela 2 Barron e Staten (2001) também examinaram os efeitos de um compartilhamento de informações entre um grupo fechado de agentes. Esse tem sido, historicamente, o caso latino-americano. Os primeiros bureaus de crédito surgiram, principalmente, da iniciativa de consórcios de bancos comerciais que trocavam informações unicamente entre si. Informações de fontes externas ao consórcio, quando existentes, limitam-se às restrições. Portanto, os modelos de scoring dos bancos comerciais tendem a ser construídos usando somente informações do próprio setor bancário, precisamente, daquelas instituições que pertençam ao consórcio. Sendo assim, os autores examinaram o impacto sobre o desempenho dos modelos de scoring da disponibilidade de informação de crédito relativa, unicamente, a certos tipos de empréstimos. Ao contrário da Austrália, nessa simulação, há informação positiva veiculada. Entretanto, o compartilhamento limita-se a setores específicos. Tabela 3 As tabelas 3 e 4 seguem a metodogia das tabelas anteriores. A restrição à informação foi incluída, limitando-se o histórico de crédito dos consumidores ao empréstimos pessoa física. Ou seja, a construção dos modelos de scoring simula uma situação na qual há acesso às informações positivas e negativas sobre consumidores, entretanto, baseiam-se unicamente em empréstimos pessoa física em vigor e passados. Nesse caso, ter-se-á o modelo incompleto. O modelo completo refere-se a todas as informações disponíveis nos bureaus. Tabela 4 A tabela 3 mostra que, para uma taxa de aprovação de 60%, a utilização do modelo incompleto, contendo apenas informações sobre empréstimos pessoa física, geraria uma taxa de inadimplência 61,3% maior. Em relação à disponibilidade de crédito, a tabela 4 mostra que, para uma taxa de default de 3%, o modelo completo aprovou 83,4% dos consumidores, enquanto o modelo incompleto aprova 75,4%, uma redução de 9,6%. Ou seja, para cada 100.000 demandas, o uso do modelo incompleto significa 9.600 menos empréstimos. Kallberg e Udell (2001) ressaltam empiricamente o valor das informações de crédito de pequenas e médias empresas fornecidas pelo Business Credit Services, uma divisão da Dun & Bradstreet Corporation (D&B), a maior empresa de informação de crédito do mercado americano. Mais precisamente, o intuito dos autores foi avaliar a capacidade das informações do bureau acrescentarem poder preditivo às variáveis contidas nos demonstrativos financeiros, ou seja, determinar estatisticamente o poder discrimi-natório das variáveis do bureau versus as variáveis financeiras. Essas últimas advêm dos relatórios financeiros da D&B entre 1985 e 1987. As empresas incluídas na amostra deveriam ter divulgado balanços patrimoniais básicos durante pelo menos três anos antes de sua classificação como boas ou más pagadoras. A amostra total reuniu 2.723 empresas, das quais 241 eram más pagadoras. As variáveis exclusivas ao bureau foram mensuradas em dezembro de 1987, entre elas, históricos comerciais (trade experierce), restrições judiciais, informações sobre os sócios etc. Foram desenvolvidos três modelos. O modelo I utilizava apenas informações do bureau, o modelo II baseava-se apenas em informações dos demonstrativos financeiros e o modelo III usava ambas as informações. Comparando os três, os autores mostraram ser o modelo II claramente inferior aos demais. Entretanto, a combinação de variáveis do modelo III apresentou o desempenho mais favorável. Dividindo as empresas em quartis, levando em conta o volume de vendas, o modelo I permanece mais eficiente do que o II para qualquer tamanho de empresa. Portanto, houve evidências estatísticas do maior poder preditivo das variáveis do bureau (D&B) frente às variáveis financeiras. Conclusão Um dos grandes desafios dos países emergentes é o financiamento do desenvolvimento. E isso só é viável com o funcionamento de um mercado de crédito dinâmico e adaptado às mudanças impostas pelos avanços tecnológicos. O compartilhamento de informações de crédito é a ferramenta mais poderosa para lidar com o problema da assimetria de informação no mercado de crédito. Um ambiente propício ao funcionamento dos bureaus revelou-se um dos principais fatores para o desempenho da economia americana no último decênio. A expansão do volume de crédito nos EUA foi fortemente baseada na incorporação dos avanços da tecnologia de informação no cotidiano dos bureaus e dos agentes financeiros. Os estudos empíricos caminham, consensual-mente, na direção de salientar a importância do compartilhamento de informações para o mercado de crédito. Tanto do ponto de vista macroeconômico, com expansão do volume de crédito a menores taxas de juros, como do ponto de vista microeconômico, com melhor poder preditivo dos modelos de credit scoring e, ainda, diminuição do incentivo ao risco moral, os resultados para o mercado são benéficos. De maneira secundária, fica evidente a vantagem dos bureaus em explorar os ganhos de escala típicos do processo de reunião, processamento e distribuição de informação de crédito, o que seria um benefício direto para os emprestadores e indireto para os tomadores. A restrição à atuação dos bureaus, com o argumento de preservar a privacidade dos consumidores ou empresas, deve ser contraposta às perdas de eficiência micro e macroeconômica. Países cuja regulação restringe o funcionamento dos bureaus têm menores volumes de crédito e maiores taxas de juros, além de haver evidências de uma menor eficiência dos modelos de quantificação de risco. Para o Brasil, a discussão acima, inequivocamente, lança uma certa luz sobre alguns problemas historicamente existentes, tais como baixo volume de crédito e altas taxas de juros. O sucesso no estabelecimento de um ambiente adequado de compartilhamento de informações pode ser um grande incentivo para um círculo virtuoso de precificação baseada em risco, diminuição da taxa média de juros dos bons pagadores, menores taxas de perda e, novamente, menores taxas de juros. Notas 1 Ver Pinheiro e Moura (2002). 2 Nesse trabalho, os bureaus referem-se a qualquer estrutura centralizada para compartilhamento de informações. 3 Os três economistas são George Ackerlof, Michel Spence e Joseph Stiglitz. 4 Japelli e Pagano (1997) discutem a possibilidade do CB constituir um monopólio natural. 5 Em 1958, cerca de 55% da população americana detinha alguma operação de crédito. Em 1998, esse número era de 78% da população. 6 A fim de verificar a lista completa de variáveis para cada modelo, ver Barron e Staten (2001). 7 As tabelas mostrarão apenas os resultados da amostra de desenvolvimento. Bibliografia BARON, John M., STATEN, Michael. The Value of Compreensive Credit Reports : Lessons from the US Experience, 2001. BORDO, M.D., e FLANDREAU, M., Core., Periphery, Exchange Rate Regimes, and Globalization, Working Paper 8584, Novembro, 2001. CATE, Fred e STATEN, Michael. The Impact of Opt-In Privacy rules on Retail Credit Markets: A Case Study of MBNA. 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João Carlos Douat é MBA pela Stern School of Business e doutor pela EAESP/Fundação Getulio Vargas. Professor e chefe do Departamento de Contabilidade, Finanças e Controle da EAESP/FGV.
Lauro Gonzalez é mestre e doutorando em Economia pela EAESP/Fundação Getulio Vargas e professor da Faculdade de Campinas e da Universidade Mackenzie.





