Revista Tecnologia de Crédito

Revista Tecnologia de Crédito

A Transparência do Mercado Implementará uma Maior Disciplina do Risco
Edição 35

O terceiro pilar da proposta para o Novo Acordo da Basiléia exigirá maior divulgação, uma vez que promoverá a transparência e a disciplina do mercado financeiro nas práticas de gestão do risco pelos bancos. Definir o que deve ser divulgado e como fazê-lo foram algumas das questões debatidas em um painel da Annual Conference on Capital Management da RMA, realizado em Washington D. C.

Criar definições comuns sobre o risco não é fácil. Tanto o Working Capital Group quanto o Working Group on Public Disclosure da RMA, dirigidos por Walter V. Shipley abordaram a questão da criação de definições comuns para a gestão e a mensuração do risco. Sem essas definições, o terceiro pilar do novo Acordo da Basiléia — a disciplina do mercado — não terá resultados eficazes. É importante observar, contudo, que embora a divulgação pública possa ajudar a criar e manter o valor para o acionista, ela é apenas uma entre as várias práticas e políticas que estão nos fundamentos da segurança e da solidez das instituições financeiras particulares e do mercado.

Os bancos precisam criar definições comuns, apesar de se tratar de uma ação difícil, afirmou Ely Licht, chief credit officer do Wells Fargo Bank. “A questão das definições comuns é muito importante. Até em minha organização são encontradas diferentes definições para o termo inadimplência, por exemplo.”

Licht foi palestrante em um painel da Annual Conference on Capital Management da RMA. Nessa mesma ocasião, falaram Robert W.J. Nimmo, chief risk officer do First Union Corporation, e Maurice Hartigan, presidente (Chief Executive Officer - CEO) da RMA e ex-vice-presidente executivo da PNC Corp.

Licht afirmou que a divulgação poderá ser insuficiente, quando se tratar do fornecimento de informações necessárias aos analistas. “Minha organização está preocupada com a possibilidade de que, pelo menos no início, as exposições venham a ser úteis apenas aos gestores de risco profissionais e reguladores. Não sabemos se elas serão do interesse dos administradores e investidores no setor”. Ely Licht concordou com Shipley, presidente do Working Group on Public Disclosure, sustentando que a disciplina do mercado é regida por um processo evolutivo.

Colocando em perspectiva histórica a natureza evolutiva do risco, Hartigan pediu aos participantes da conferência que considerassem os relatórios anuais de suas instituições entre 1975 e 1995. “A partir das notas, tentem entender em quais atividades incidiam os riscos na década de 70. Ninguém vai conseguir. O mercado é exigente”, disse Hartigan, salientando que há esperanças de que as diversas agências reguladoras cheguem a um consenso sobre o que será necessário. “Alguns valores e dados deverão ser divulgados com mais assiduidade. Ou seja, mensal, trimestral ou anualmente. A qualidade da transparência deve estar relacionada às operações das instituições — quanto mais complexas elas forem, maior o nível de exposição exigido”.

Concordando com Hartigan, Nimmo afirmou: “Os mercados precisam estar informados. A chave está no nível adequado de divulgação. Há um limite para aquilo que os mercados podem absorver. Há muito tempo os mercados não são informados sobre o que acontece dentro das grandes e complexas organizações bancárias. Os reguladores terão que se envolver mais e determinar padrões de consistência”. Nimmo assegurou que os bancos desenvolvem um processo de aprendizado e que ele apóia o rumo que está sendo tomado.

O Efeito da Divulgação sobre o Índice Preço/Lucro

Uma maior transparência poderá resultar em índices mais elevados de preço/lucro, semelhantes aos alcançados por outros setores? Provavelmente não, pelo menos a curto prazo. “Pelas minhas observações, durante os 30 anos em que atuei no setor bancário e nos últimos 12 anos em que participei de debates sobre esse assunto com presidentes de instituições, deduzi que eles acreditam que o mercado nunca conferiu aos bancos os mesmos índices de lucros de outros setores em vista da grande volatilidade”, acentuou Licht.

Hartigan concordou com Licht: “Os investidores acreditam que estamos sujeitos a riscos incon-troláveis. Com o tempo, a divulgação pode fazer com que os investidores se sintam mais à vontade com as instituições financeiras, mas isso não acontecerá subitamente”.

Eventualmente, a ampla divulgação exigirá que o setor relate suas posições de risco com marcação a mercado.

“O fato é que há enormes dificuldades práticas na passagem para um modelo de marcação a mercado com referência a empréstimos”, disse Nimmo. “Nos últimos 5 anos, a Comissão de Valores Mobiliários e Câmbio (Securities and Exchange Commission – SEC) vem observando com muita atenção a maneira como são gerenciadas as perdas com crédito e as projeções de expectativa de prejuízos.”

Se há dificuldade para determinar qual será o componente de perda com um empréstimo, maior será a complexidade na passagem para um regime de marcação a mercado. Além disso, os empréstimos não podem ser isolados; é necessário considerar o restante do balanço para constatar consideráveis dificuldades práticas. A solução do problema ainda está distante”.

Entretanto, os problemas da marcação a mercado vão além das meras questões práticas. “Entre os resultados da marcação a mercado de uma categoria de ativos tão grande quanto a de empréstimos, serão encontradas dificuldades teóricas e muita volatilidade”, disse Nimmo. “Será isso desejável sob a perspectiva da segurança e da solidez? Provavelmente, não. O mercado de crédito não apresenta tanta liquidez ou eficiência quanto outros. Não estou certo de que o mercado esteja preparado para esse nível de transparência; isso geraria confusão e, portanto, não seria um avanço”.

Nimmo também se questionou sobre a transferência de ativos mantidos como investimentos para a categoria de manutenção para venda. Ele sugeriu cautela. “Quando se transferem ativos para a categoria de manutenção para venda, qualquer diferença negativa na primeira marcação precisará passar pela provisão contra perdas em empréstimos. Em outras palavras, estamos adotando a premissa de que o único motivo para uma transação abaixo do par seria a presença de alguma deficiência no crédito. Isso é uma simplificação excessiva e espera-se que esse tratamento dado aos ativos mantidos para venda seja, na verdade, apenas o começo do processo. Sem dúvida, precisamos aprender a gerenciar melhor a li-quidez; o que significa aumentar a liquidez de nossos ativos. Temos de agir com cautela. Há muitas questões que precisam ser consideradas”.

Licht admitiu, ainda, que os modelos usados para estimativa de fluxo de caixa e valores de transporte adotam um grande número de premissas. “Estamos longe de usá-los de forma generalizada”, disse ele.

Não se sabe ao certo se as instituições deverão usar modelos de risco externos ou internos. Nimmo observou que o First Union está entusiasmado com os modelos que vêm sendo criados pela KMV e outros: “Buscamos consistência. Os melhores têm chances de vencer. Serão construídos modelos muito bons, provavelmente, mais aprimorados que os de construção interna, e acabaremos todos por gravitar em torno desses modelos. Há gente muito especializada trabalhando nesse projeto”.


PENINHA

Hoje, o foco principal é a gestão do risco de crédito. No passado, os riscos de crédito, operacional, regulador e jurídico eram administrados nas unidades de negócios das instituições. No ambiente infinitamente mais complexo atual, é crucial que as instituições gerenciem seu risco como um todo. Muitas delas estão se concentrando no risco enterprise-wide e criaram um novo cargo em suas hierarquias para supervisionar os riscos gerais.

“A evolução das instituições financeiras nos últimos 10 anos no que tange à regulação e à tecnologia aumentou a complexidade do risco e fez com que ele ultrapassasse o alcance dos diretores de crédito”, argumentou Hartigan. “O centro gravitacional desses riscos está mais associado ao presidente e ao diretor financeiro do que simplesmente ao diretor de crédito. O capital das instituições precisa ser corretamente alocado entre as diferentes áreas, para que haja retorno adequado ajustado pelo risco em relação ao capital econômico”.

Entre as considerações das grandes organizações para determinar o risco enterprise-wide destacam-se a coleta de dados e a tecnologia de sistema de informações gerenciais, segundo Hartigan. Ele destacou, ainda, a importância do estabelecimento de padrões de risco uniformes, da definição clara de metas e objetivos e da autoridade do risk policy officer. A estrutura da organização precisa sustentar as metas da instituição e realizar revisões contínuas. “A cultura precisa desenvolver-se de maneira a facilitar a atuação com os negócios emergentes das organizações, independentemente de seu porte”, afirmou. “Todos os bancos e instituições financeiras devem empregar processos e modelos de gestão de risco e proceder de forma que a cultura se alinhe às práticas de negócios”.

Em bancos menores, o presidente (CEO) exerce o papel de chief risk officer, disse Nimmo. “Um chief risk officer tem que compartilhar a perspectiva do CEO com as instituições maiores e tal amplitude resulta em excelente função. É muito estimulante e representa uma grande oportunidade de construção de valor para o acionista. Ao atrelar o risco aos requisitos de capital, somos forçados a considerar todos os riscos de uma maneira consistente. A cada dia, vejo que tudo está interligado. É o caso das securitizações. Muitas vezes, para minimizar o risco e gerenciar o desempenho, optamos por securitizar os ativos, ao invés de mantê-los. Mas mesmo quando não possuímos mais esses ativos, criamos novas espécies de risco que ainda precisam ser gerenciadas e incluídas no risco enterprise-wide.”


© 2001 RMA. Kathleen M. Beans é editora contribuinte do The RMA Journal e escreve artigos para o Website da RMA, www.rmahq.org. 
A Risk Management Association (RMA) é uma associação internacional de serviços financeiros profissionais. Para informações, e-mail acauley@rmahq.org; para assinar The RMA Journal visite o site www.rmahq.org/Ed_Opps/pubs/journalad.htm


  • 2012 Serasa Experian. Todos os direitos reservados.