Revista Tecnologia de Crédito

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A Economia Mundial Registra o Menor Crescimento dos Últimos Oito Anos
Edição 34

A economia mundial teve, neste ano, um dos menores crescimentos desde 1994, — não mais que 2%.Os sinais de retomada, no primeiro trimestre, absorvendo o choque do ataque terrorista de 11 de setembro do ano passado, foram sendo amortecidos, no decorrer dos meses, pela forte desaceleração na eurozona, por mais uma recessão — a décima — no Japão, pelos desvios contábeis de empresas listadas na bolsa americana em forte queda e pelas crises financeiras na América Latina. A própria economia americana, que chegou a aumentar mais de 3% no trimestre e 4% no terceiro trimestre, não confirma a previsão do Federal Reserve de crescimento de 3% e 3,5%. A ultima estimativa da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é que o PIB americano crescerá neste ano apenas 2,3%, podendo chegar a 2,5%, mas, provavelmente, não atingirá 2,6% em 2003.

Quanto ao Brasil, que não faz parte da Organização (na América Latina, o único integrante é o México), a ultima estimativa é de 1,2% e 2% no próximo ano. Mas se o novo governo conseguir (como está indicando) conquistar a confiança do mercado financeiro internacional, o crescimento poderá registrar os 2%, em 2003. Para a OCDE, mais importante do que alterar a taxa de juros é manter uma política fiscal coerente com o programa acertado com o FMI e atrair investimentos externos.

A OCDE, que congrega as 30 principais economias mundiais, representando 75% do PIB e 82% do comercio global, considera o ano de 2002 desanimador, uma vez que o período foi dominado por incertezas que deverão persistir ainda em 2003, pois os desafios políticos e os problemas estruturais na União Européia e no Japão não foram superados e não há perspectivas de que o sejam, a curto prazo.

É preciso ressaltar que a OCDE não afirma em seu relatório que esse resultado negativo deve ser atribuído ao terror e ao tenso clima político internacional. A economia mundial está crescendo menos porque nem a União Européia nem o Japão adotaram as mesmas medidas postas em prática pelos Estados Unidos para retomar o crescimento.

O economista chefe da Organização, Jean-Phillipe Cotis, acredita que estamos presenciando um fenômeno de divergências estruturais, com a crescente diferença entre os Estados Unidos, o Japão e a Europa Continental (a eurozona, da qual a Grã-Bretanha não faz parte). Para ele, os Estados Unidos souberam enfrentar primeiro os efeitos da desaceleração econômica e, depois, os do terror, com uma política monetária ousada. Isto é, com uma drástica redução das taxas de juros de 5%, em março, para 1,25%, em novembro, e com um forte estimulo tributário, adotada imediatamente após o choque terrorista. Não foi só isso. Em novembro, o Federal Reserve (Fed) voltou a reduzir o juro básico em 0,50 ponto, anunciando que, se for necessário, o cortará ainda mais, mesmo considerando que os 1,25% já podem ser considerados juros reais negativos.

Sincronizado com o Fed, o economista-chefe da equipe de assessores de Bush anunciou um novo pacote de redução de impostos para o início de 2003, objetivando reativar a demanda interna e estimular investimentos, até mesmo os realizados na bolsa de valores.

Essa política que evitou a recessão e manteve uma razoável taxa de crescimento econômico, não foi seguida pela Eurozona. Os doze países da área do euro, que vão da Alemanha até Portugal, ficaram presos aos 3,25% fixados em março pelo Banco Central Europeu (ECB). Passaram todo o ano de 2002 sofrendo o peso da redução da demanda e das exportações. Mais ainda, a comissão européia vetou qualquer aumento de investimento que os governos viessem a fazer para reestimular a economia, se implicasse em elevação do endivi-damento interno ou do déficit. A única saída que o ECB e a comissão sugeriram foi o aumento recessivo de impostos (a média da carga tributaria já está em quase 50%) ou a atração de investimentos externos escassos para economias estagnadas.

A OCDE aponta essa falta de sintonia, esse contraste chocante de política econômica como a causa principal da retração mundial. Em seu relatório final, a organização reduz a estimativa de crescimento da eurozona de 2% para 0,8% e de toda a União Européia (incluindo a Grã-Bretanha, a Suécia e a Dinamarca), para 0,9%. A previsão de crescimento da Alemanha é de apenas 0,4% e, a da França, não mais de 1,6%, se tanto. As duas principais economias da zona do euro estão em franco desaqueci-mento que se acentuou no segundo semestre do ano passado, quando começou também a desacelera-ção da retomada americana. Como conseqüência, a OCDE reviu sua estimativa para os 30 países membros de 1,8%, feita em abril, para 1,5% em novembro. Mas analistas do mercado financeiro e alguns institutos de pesquisa, principalmente da França e da Alemanha, são menos otimistas. Em novembro do ano que findou, com base em dados da própria comissão européia, eles reduziam essa previsão para 0,6%. Esse era o cenário no último trimestre do ano e não havia nenhum fato novo ou tendência que mostrasse qualquer sinal de um resultado mais positivo nos próximos meses. Muito pelo contrario, o desemprego na Alemanha e na França está fechando o ano com uma taxa de 9% da força de trabalho, agravando a forte queda do consumo interno e da produção industrial. Nesse sentido, a adoção do euro e de uma política econômica e monetária comum foi altamente negativa, pois o único país importante da União Européia, a Grã-Bretanha, que não aderiu à moeda única, ficou livre das pressões de um banco central preocupado apenas com uma inflação máxima de 2%.

O ex-Secretário do Tesouro americano, Paul O’Neill, fez no final do ano os mesmos apelos de seu antecessor e o presidente do Fed, Alan Greenspan, pediu para que a União Européia e o Japão seguissem a política monetária e fiscal dos Estados Unidos, que havia tirado o país da beira da recessão.

Paul O’Neill foi até agressivo: “Os Estados Unidos não podem continuar sendo o único motor da economia mundial. O resto do mundo também deve agir assim.” Ele referia-se, certamente, ao fato do mercado americano estar absorvendo, há anos, o excesso de produção mundial, refletido no déficit da balança comercial, atualizado até setembro, de US$ 452,7 bilhões. Enquanto isso, a Eurozona apresenta um superávit de US$ 95.6 bilhões, mas já em declínio nos últimos meses do ano. A vice-presidente do FMI, Anne Krueger, condena também essa imobilidade e afirma que o panorama para as economias européias vem se deteriorando num ritmo quase mensal e “as expectativas não são tão boas (como a dos EUA.)” Ela foi até cautelosa, pois, na verdade, o ultimo estudo do FMI para a União Européia delineia um quadro extremamente negativo e estima um crescimento de apenas 0,7%.

O Brasil

O cenário recessivo refletiu-se fortemente nos países emergentes, principalmente no Brasil que passou por um ano difícil de transição presidencial, turbulência externa e retração do mercado financeiro internacional.

A OCDE vem acompanhando também atentamente os três principais países emergentes, Brasil, China e Rússia que não são membros da organizaçâo, mas pesam na economia mundial. Em seu relatório final, de 2002, ela assinala que a China continua apresentando bons níveis de crescimento, 8%, e a Rússia, 4%. Ambos representam um ponto menos que o ano anterior, porém, mesmo assim, destacam-se como as economias mundiais de maior crescimento, mesmo num ano fortemente negativo. A China pelo peso das suas exportações de mais de US$ 300 bilhões, e a Rússia pelo aumento da venda de petróleo, aproveitando a crise no Oriente Médio e na Opep.

A OCDE destina ao Brasil, como às duas outras maiores economias mundiais que não integram a organização, a China e a Rússia, uma analise sucinta, porém, muito exata. Como para a Europa e mesmo os EUA, ela reduziu a previsão de crescimento do PIB do Brasil de 2,5% feita em abril, para 1,2% em novembro. O fato, afirma o relatório, se deve às tensões no mercado financeiro internacional, mais avesso a riscos, fortes quedas em todas as bolsas e o conturbado cenário político externo. Isso coincidiu com a eleição presidencial, no Brasil, que ocorreu num clima tenso de guerra no Oriente Médio, semi-recessão mundial e vitória da oposição.

Entretanto, mesmo diante dessas pressões internas e externas, a OCDE afirma que o Brasil conseguiu superar a fase mais crítica graças, principalmente, à manutenção de uma política monetária e fiscal elogiada pelo FMI e pelo mercado financeiro internacional. Eles estão vendo sinais de continuidade no novo governo, principalmente no que diz respeito aos pontos básicos do programa de estabilidade iniciado no Plano Real.

Os economistas da OCDE focalizam a importância desse tipo de continuidade, afirmando, no relatório, ser essencial que o novo governo mantenha a confiança dos investidores externos no país.

“Confiança é a palavra-chave”, declarou um dos autores do documento. “Por enquanto, diz ele, temos bons sinais, mas é preciso que o novo governo transforme as declarações até agora positivas, em ações concretas”.

Se isso ocorrer e se a economia mundial não registrar novo recuo, o PIB brasileiro deverá crescer 2%, em 2003, e 3,5%, em 2004.

A analise da OCDE é positiva, mas cautelosa.

“O novo governo enfrenta dois desafios: a associação perversa de um baixo crescimento econômico e juros altos. Uma taxa de 25% aumenta o peso da dívida, reduz o crescimento e afeta os investimentos”.

“Para nós, na OCDE, não se pode aceitar apenas uma redução das taxas de juros nominais, mas a retomada da confiança nos mercados financeiros quanto à política econômica do novo governo e, por ora, isso está ocorrendo”.

O fato atenuou de forma considerável as pressões externas sobre o Brasil que terminou um ano dramático, para ele e para o mundo, numa situação bem melhor do que se esperava.


Alberto Tamer é Jornalista Econômico. Radicado em Londres e Paris. Assina uma coluna sobre Economia Internacional no Jornal “O Estado de São Paulo”, na Agência Estado e em 38 jornais brasileiros.


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