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Conjuntura
A importância do Crédito Mercantil
Edição 88

Tanto no Brasil quanto no exterior, muito se tem falado sobre a importância da concessão de crédito por parte das empresas não financeiras. Mas, talvez, no caso brasileiro, nenhum estudo tenha ainda podido quantificar, adequadamente, esse fenômeno, cada vez mais crescente e que se reveste de importância singular. O chamado crédito mercantil representa a fonte natural de financiamento de qualquer negócio. São as compras a prazo que as empresas fazem de seus fornecedores de insumos e mercadorias, e que figuram nos balanços de quem compra como uma obrigação a pagar, sob a rubrica de fornecedores e, no de quem vende, como contas a receber de clientes.

Um estudo elaborado pela Serasa, com base em uma amostra de 60.000 balanços de empresas brasileiras, extraída do seu banco de dados, demonstrou que o crédito mercantil, medido pela evolução da conta fornecedores, apresentou um crescimento real (descontada a inflação) de 60%, contra 34% do crédito bancário, medido pela evolução da conta financiamentos bancários de curto e longo prazos, no período de 31/12/94 a 30/6/2004.

O maior crescimento do crédito mercantil, em relação aos financiamentos bancários, pode ser explicado pelo fato de que uma grande parte das atividades mercantis no Brasil não consegue captar recursos, especialmente aqueles destinados a suprir necessidades de capital de giro, a uma taxa de juros que possa ser remunerada adequadamente, pelo retorno conseguido no seu ramo de negócios, ou seja, não consegue obter uma alavancagem financeira favorável.

Esse fato faz com que as empresas procurem uma aproximação ainda maior com os principais fornecedores da sua cadeia de produção, conhecedores das características, riscos e oportunidades da sua atividade, buscando aprofundar, ainda mais, o relacionamento com esses parceiros e, dessa forma, ampliar os seus limites de crédito e obter os recursos necessários para a expansão dos seus negócios, a custos compatíveis com os retornos obtidos no seu ramo de atuação.

O estudo mostra, também, comportamentos bem diferentes quando segregamos as empresas por porte – grandes, médias e pequenas – e por setor de atividade – indústria, comércio e serviços.

Analisando as empresas por setor de atuação, observamos que tanto as indústrias quanto as prestadoras de serviços têm necessidade de realizar grandes investimentos em ativos, o que as torna importantes tomadoras de recursos bancários, sobretudo de longo prazo, para fazer frente a investimentos em tecnologia e expansão de plantas industriais que possam garantir a escala necessária para atender às crescentes demandas do mercado por produtos e serviços competitivos. Para atender a essas necessidades de recursos, as linhas de financiamento de longo prazo, geralmente repasses do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), são as mais adequadas, pois são compatíveis com os longos ciclos de maturação de projetos dessa natureza.

A análise do comércio mostra uma situação diferente pela estrutura das empresas comerciais, que têm como principais ativos os estoques e as contas a receber de clientes. O crédito mercantil, é, portanto, muito mais representativo por estar relacionado diretamente à sua atividade operacional básica de compra e venda. Os créditos mercantis no comércio representavam, em 30/06/2004, 1,7 vez os financiamentos bancários. Mas esse perfil nem sempre foi assim. Em 31/12/94, alguns meses após a implantação do Plano Real, quando o comércio começava a ampliar as vendas a crédito, com prazos mais longos, a relação era de 1,4.

Com o crescimento das diferentes formas de venda a prazo, como o cheque pré-datado, as empresas comerciais encontraram no seu parceiro natural, os seus fornecedores, o caminho para ampliar a sua oferta de crédito. Nesse período, o valor dos créditos mercantis saiu de R$ 24,3 bilhões para R$ 36,1 bilhões, o que representa um crescimento real de 48%, contra 25% dos financiamentos bancários, que passaram de R$ 17,4 bilhões para R$21,8 bilhões.

Quando analisamos as empresas por porte, observamos que nas grandes o crescimento foi de 97%, enquanto nas pequenas e médias houve um decréscimo de 2%. Esses números podem ser explicados pela diferença de poder de negociação dos dois grupos, mais favorável às grandes.

O crescimento real de 34% dos financiamentos bancários também apresenta diferenças significativas, conforme o porte: crescimento real de 59% nas grandes empresas e queda real de 34% nas pequenas e médias. A explicação para comportamentos tão díspares está no fato de que as grandes empresas têm maior facilidade para obtenção de empréstimos bancários, em razão das diferentes percepções de risco que as instituições financeiras têm desses dois segmentos de mercado, motivadas, principalmente, pelos diferentes graus de assimetria de informação de cada um.

Enquanto as grandes empresas apresentam maior transparência em suas informações, revelando balanços, modelos de gestão e práticas de governança corporativa, as pequenas e médias ainda são vistas como desconhecidas, o que amplia as incertezas e aumenta a aversão a riscos para esse tipo de empresa. Essa situação tende a se modificar com a intensificação das práticas de compartilhamento de dados estimuladas por empresas como a Serasa, que reúne informações sobre hábitos de pagamento e compromissos vencidos e a vencer dessas empresas com seus fornecedores. Hoje o banco de dados da Serasa reúne informações comportamentais sobre 1,7 milhão de empresas. Já não podemos mais dizer que as micro e pequenas empresas são desconhecidas.

O estudo revela que o montante de crédito que as empresas concedem para seus clientes é extremamente expressivo e, por isso mesmo, deve fazer parte das suas prioridades a adoção de técnicas avançadas para concessão e gerenciamento do risco de crédito, uma vez que os valores dos crédito administrados são da ordem de R$ 161,3 bilhões.


 

Laercio de Oliveira Pinto
Diretor de Produtos da Serasa S.A.


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