Os indicadores econômicos mostram que, além do forte crescimento da produção industrial, o comércio também tem apresentado desempenho bastante positivo. No primeiro semestre de 2004, enquanto a produção física da indústria teve crescimento médio de 7,7% em relação ao mesmo período de 2003, as vendas físicas do comércio aumentaram 9,3%, conforme os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esses dados revelam que, de fato, a economia brasileira está em processo de recuperação, o que sugere que a condução da política monetária praticada pelo Banco Central, desde meados de 2003, não tem impedido, como alardeado por alguns economistas e analistas no início desse ano, a retomada do nível de atividade econômica. Isso sinaliza que a recuperação econômica também tem recebido contribuições significativas do mercado doméstico e não apenas do setor exportador.
Embora parte do crescimento seja explicada pela base de comparação defasada, uma vez que houve recessão no ano passado, os dados mensais livres de efeitos sazonais confirmam a trajetória de recuperação do setor, já que em junho de 2004 as vendas completaram a décima alta consecutiva (desde setembro de 2003), acumulando crescimento de 7,3% em relação a dezembro de 2003. A importância do comércio para a economia é evidenciada pela grandeza dos números e por sua ligação com outros segmentos. Segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2002, o setor gerou valor de R$ 92,2 bilhões, 7,7% do PIB, empregando 10,8 milhões de pessoas. Do total dos bens e serviços demandados pelo comércio, 53% vêm da indústria de transformação, 7% dos transportes, 7% de aluguéis, 6% de comunicações, 4% dos Serviços de Utilidade Pública (basicamente energia elétricae 4% de instituições financeiras. O primeiro gráfico mostra a evolução das vendas físicas, do volume real de crédito e da massa real de salários. Nota-se que, no período de recuperação, o volume de crédito foi determinante, embora o poder de compra da população também tenha contribuído para sustentar a tendência de alta das vendas. Em junho de 2004, enquanto o volume real de crédito acumulou crescimento de 9,1% frente a dezembro de 2003, a massa real de salários aumentou 6,0%. Isso explica porque os segmentos dependentes de financiamento, como os móveis e eletroeletrônicos e os veículos, motos, partes e peças, apresentaram desempenhos mais acentuados em relação aos dependentes do poder de compra da população (super e hipermercados), como mostra o segundo gráfico. As condições favoráveis para a recuperação do comércio foram criadas a partir da redução da taxa básica de juros (Selic), que caiu 10p.p. (pontos percentuais) desde meados de 2003, permanecendo em 16% desde abril, fato que contribuiu para reduzir o custo e elevar a oferta do crédito no período. Embora o Banco Central tenha sinalizado possíveis elevações da Selic ainda em 2004, espera-se que os juros ao consumidor continuem em níveis inferiores aos de 2003 e que a renda e o emprego mantenham a trajetória de recuperação ao longo do segundo semestre de 2004. Nesse contexto, os modelos econométricos estimados com base na produção de veículos e máquinas da Associação Nacional dos Fabricantes de Automotores (Anfavea) e na expedição de papel e papelão da Associação Brasileira de Papel Ondulado (ABPO), variáveis importantes já que antecipam as oscilações da atividade econômica via demanda por embalagens e fabricação de automóveis, têm grande efeito no restante da cadeia produtiva, pois sinalizam crescimento médio de 6,5% para a produção industrial em 2004. Como o desempenho das vendas do comércio tem uma correlação direta com a indústria, as projeções baseadas nesses modelos apontam que as vendas físicas do comércio varejista terão crescimento médio de 9,5% em 2004 ante 2003.
