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Conjuntura
O sistema agroindustrial
Edição 84

A agropecuária foi o setor que mais cresceu na economia brasileira na última década, 40%, praticamente o dobro do crescimento da indústria e dos serviços(1). Em 2003, o PIB do agronegócio foi projetado em R$ 458,8 bilhões, sendo R$ 86,2 bilhões referente à agricultura, R$ 55,5 bilhões à pecuária e os R$ 317,2 bilhões restantes gerados nos setores de insumos, indústria processadora e distribuição(2). No âmbito internacional, a receita de exportação do agronegócio foi US$ 30,7 bilhões(3) e o Brasil liderou a exportação de diversas commodities agrícolas, participando com 85% do total mundial de suco de laranja, 40% das vendas de soja em grão, um terço das de açúcar, café e carne de frango, cerca de 20% dos mercados de carne bovina e tabaco, e 16% do de carne suína. Para 2004, as perspectivas são de desempenho ainda melhor.

Para melhor compreender a performance do agronegócio brasileiro, é importante observar que, além da potencialidade de que dispõe (527 milhões de hectares de área agricultável(4), condições climáticas favoráveis que permitem o cultivo de produtos de climas temperado e tropical, maior bacia hídrica do mundo, bons solos, menor custo da terra frente à dos países mais desenvolvidos), o País possui excelente nível de pesquisa no assunto (Embrapa e universidades) e foi favorecida por profundas transformações institucionais nos anos 90 (desregulamentação estatal e diminuição da participação do Estado na economia, abertura comercial, eficácia da política antiinflacionária, planos de safras e desvalorização cambial em 1999).

O resultado foi um setor primário competitivo e mais intensivo em capital, isto é, seus produtores investiram mais em tratores, colheitadeiras, melhorias genéticas nas sementes/matrizes, maior uso de fertilizantes, defensivos agrícolas, implantação de técnicas de irrigação com suporte tecnológico etc. Nos últimos anos, dada a necessidade de vencer as barreiras não-tarifárias do comércio internacional, que são as exigências de especificidades para os produtos, investiu-se em certificação de origem, controle de qualidade dos produtos e sistema de rastreabilidade de rebanho. Investiu-se, ainda, em marketing, com alguns produtos sendo expostos em feiras internacionais.

O sistema agroindustrial envolve todo o conjunto dos setores da economia presentes no processo produtivo dos itens agropecuários, desde o fornecimento de insumos (empresas de sementes, fertilizantes, defensivos agrícolas, tratores, máquinas e implementos agrícolas) até a distribuição dos produtos aos setores atacadistas, passando pelas indústrias de processamento vegetal e animal, que incluem desde o setor de bebidas e alimentos ao gerador de energia elétrica por biomassa, abrangendo os setores produtores de calçados, têxteis, combustíveis, móveis, cosméticos e papel. O atual conjunto de produtos do sistema agroindustrial não se restringe às tradicionais culturas agrícolas (milho, soja, trigo, sorgo, algodão, cana-de-açúcar, laranja, algodão, café, arroz, feijão, amendoim, hortifrutigranjeiros etc.), à produção das carnes tradicionais (bovina, suína e de frango) e à pesca, mas inclui novos segmentos, como a produção de frutas tropicais, a agricultura orgânica, o cultivo de camarão e de peixes, a produção de carnes diferenciadas (búfalos, javalis, avestruzes, carneiro etc.).

No entanto, as atividades agropecuárias ainda têm muitos desafios pela frente no tocante ao desenvolvimento sustentável, visto que estão diretamente ligadas ao meio ambiente e a produção de alimentos envolve saúde humana. É preciso que haja consciência ecológica nos produtores e responsabilidade social, pública e privada, de todos os agentes envolvidos para que as atividades de fiscalização sejam rigorosas (na sanidade nos abates de carnes, no tratamento de dejetos, no respeito às quantidades permitidas do uso de substâncias agrotóxicas, no destino das embalagens destes produtos, no transporte dos alimentos etc.).

Em relação ao crédito, é importante destacar que os produtores rurais precisam de recursos antecipados para cultivar seus produtos. Os recursos provêm tanto do setor público (Banco do Brasil, BNDES e bancos estaduais) como do setor privado, por meio de mecanismos de comercialização (contratos futuros de bolsas, cédulas de produto rural, AGF(5)), via bancos privados. Estes, por determinação do Banco Central, direcionam 25% de seus depósitos à vista ao crédito rural, e até por contratos firmados entre empresas fornecedoras de insumos e produtores, em geral com o pagamento do insumo sendo feito pela entrega física do produto final (“contratos de gaveta”).

Na atividade rural, além do risco inerente da produção ser afetada por fenômenos climáticos, há, também, a assimetria de informação em relação às pessoas físicas produtoras rurais com bons antecedentes creditícios, que faz com que os recursos dos bancos privados não sejam utilizados em sua plenitude, pois há muitas exigências para a concessão do crédito. Felizmente, a atividade rural tem apresentado progressiva profissionalização, não só se tornando mais atraente, mas mais bem preparada para atender às exigências necessárias.

Notas
1 Dados do IBGE.
2 Dados do CEPEA-ESALQ-USP e CNA.
3 Dados do MAPA.
4 Segundo o CNA, atualmente são utilizados para agropecuária, 353,6 milhões de hectares deste total.
5 Aquisições do Governo Federal.


André Mascia Silveira, analista setorial pleno da Serasa, é bacharel em ciências econômicas pela FEA-USP e mestre em economia aplicada pela ESALQ-USP.


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