Carlos Henrique de Almeida Esta transformação tem origem na globalização e nos crescentes investimentos em tecnologia da informação e serviços. A primeira, viabilizada pela expansão do capitalismo, tem determinado ampla desregulamentação dos mercados através do rompimento das barreiras comerciais e das fronteiras para as transações. No caso da tecnologia da informação, que é a essência da nova economia - chamada também de "economia digital"- é decorrente do avanço nas infra-estruturas mundiais de informática e de telecomunicações e a hegemonia dos Estados Unidos nesse setor. Com isso, foram criadas as condições para a rápida evolução da Internet, do comércio eletrônico, dos negócios virtuais e, sobretudo, da expressiva valorização das empresas de tecnologia. Podemos dizer que a informação é a commodity do terceiro milênio, ou seja, da era do conhecimento. No âmbito macroeconômico, a interpretação dessa realidade ainda é cercada de controvérsias. O ineditismo histórico dos fatos dificulta a validação das teorias e fundamentos econômicos. Da mesma forma que a revolução industrial promoveu a revisão do pensamento econômico, a revolução digital provavelmente exigirá outra iniciativa nesse sentido, mais cedo ou mais tarde. Acreditar que a nova ordem, na expressão da economia norte-americana, tenha descoberto a fórmula para o crescimento acelerado e permanente, com inflação próxima a zero, desemprego baixo e desprezo aos ciclos de negócios, parece ingenuidade. Costuma-se contra-argumentar que a inflação de custos não é preocupante na nova economia porque, quando considerado o exemplo dos Estados Unidos, há um aumento de produtividade suficiente para bancar as reivindicações salariais e garantir lucros simultaneamente à redução de custos. Entretanto, a maior evolução da produtividade tem sido localizada principalmente nos segmentos de tecnologia de ponta, que contabilizam indicadores até três vezes superiores aos da velha economia. Ou seja, não é uma conquista generalizada. A par de que os incrementos de produtividade são acompanhados por movimentos correspondentes na renda, mais acentuados também nas empresas de tecnologia onde os salários estão acima da média de mercado, é natural se esperar um acréscimo na demanda superior ao da oferta. Evitar o descompasso entre a demanda e a oferta tem sido a maior preocupação do FED, na administração das taxas de juros. Para os defensores da nova economia, a Internet disponibiliza a oferta global, o que afasta a possibilidade de ocorrência de uma inflação de demanda. As empresas da nova economia, participantes do índice Nasdaq, certamente encontram-se supervalorizadas, ora pelo entusiasmo dos investidores nesses papéis, ora pela ausência e desconhecimento de eficientes técnicas de avaliação de negócios e marcas virtuais. Afinal, como determinar o valor de um patrimônio virtual? Como gerar indicadores econômico-financeiros a partir deste? Como funcionam as garantias virtuais? Como fazer inventários? Para ilustrar, uma consultoria norte-americana propôs que, na economia virtual, as empresas sejam avaliadas pela sua base de conhecimento, como principal ativo e diferencial competitivo. Com esse objetivo, desenvolveu uma série de métodos para quantificar o capital intelectual e seu retorno, tendo o maior peso nos profissionais mais qualificados -aqueles mais preparados para a sociedade da informação. O que precisa ser esclarecido é que a nova economia define outro conceito de valor e que este, diferentemente do da economia agrária e da industrial, dá ênfase ao intangível, isto é, à velocidade e à informação. As leis econômicas atuais não prestigiam esses parâmetros. Outra alteração significativa da economia virtual sobre a real, se refere ao novo dimensionamento das elasticidades preço e renda. No caso do consumidor, deve-se considerar que através de um simples clique no computador, este pode obter os melhores preços/condições para um produto, no mercado local ou em qualquer parte do mundo. A partir daí, tanto para consumidor como para empresas, a velocidade dos negócios no e-commerce torna qualquer bem ou serviço perecível, se não acompanhar a dinâmica exigida. Leia a conclusão deste artigo na próxima edição do Boletim Informativo Serasa. Carlos Henrique de Almeida é economista, com pós-graduação em Administração de Empresas na Fundação Getúlio Vargas. É assessor econômico da presidência da Serasa.
A nova economia está causando profundos impactos nas estruturas industriais, de negócios, públicas, de força de trabalho e sociedade em geral, resultando em grandes desafios para a velha ordem, ou seja, a economia industrial.