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Pequenas e Médias Empresas registram faturamento recorde, mas lucro baixo ainda trava investimentos

18/10/2004

O estudo completa a análise, iniciada com o levantamento das grandes, do desempenho das empresas brasileiras, nos três setores, na última década.

Um raio X inédito feito pela Serasa com base nos demonstrativos contábeis de 32 mil pequenas e médias empresas mostra faturamento em fase de crescimento, mas lucro baixo travando investimentos. Nos últimos dez anos, período do estudo realizado pela Serasa, houve fortalecimento financeiro das pequenas e médias empresas, expresso na melhoria da capacidade de geração de caixa. O faturamento, por sua vez, mesmo tendo crescido acima da inflação, estacionou nos últimos 3 anos. Porém, para 2004, verifica-se uma alteração do cenário com a retomada do crescimento, o que poderá ter reflexo positivo no desempenho das empresas desse porte.

O faturamento líquido das empresas do comércio, da indústria e de serviços registrou crescimento real de 49,5% entre 1994 e 2003. Segundo a pesquisa da Serasa, a expansão do faturamento foi impulsionada pelo comércio e pelos serviços, com evolução de 64,9% e 54,1%, respectivamente. O segmento industrial registrou 34,6% de variação no período.

Os técnicos da Serasa observaram que a menor utilização de recursos do sistema financeiro por causa dos juros elevados, que inibiram as pequenas e médias empresas a tomar crédito, provocou uma desvantagem quando comparadas às grandes empresas que, por terem maior facilidade de acesso a crédito, puderam investir em automação para permitir controle mais eficaz dos estoques, melhora dos processos de qualidade, padronização das operações entre clientes e fornecedores e agilidade nos processos de logística.

Por força dessa circunstância, as pequenas e médias tiveram menor despesa financeira e puderam operar com lucro ao longo de toda a década, embora apresentando estreita rentabilidade das vendas. Já as grandes empresas oscilaram momentos de alta lucratividade com outros de prejuízo. Os lucros contínuos ao longo da década garantiram para as pequenas e médias empresas maior cobertura de dívidas pela geração de caixa, medida pelo Ebitda: em 2001 elas precisariam de 8 anos para pagar suas dívidas e fecharam a década necessitando de 5,9 anos.

Três ciclos

O estudo da Serasa identificou três importantes ciclos no período de 1994 a 2004: o primeiro ciclo, denominado Estabilidade Monetária, começa em 1994 e vai até 1996; o segundo, de 1997 a 1999, foi chamado de Crises Internacionais; e o terceiro ciclo, de 2001 até 2003, intitulado Crises Internas. O ano de 2000 foi tratado isoladamente pelo fato de a economia ter apresentado desempenho ímpar, em relação aos demais ciclos.

O primeiro ciclo teve dois fatores principais. Um deles foi o processo de estabilização da moeda, que eliminou o imposto inflacionário e inseriu um maior número de consumidores no mercado, causando uma alavancagem no faturamento das empresas e elevando o patamar de toda economia. O outro, foi a ampliação do processo de abertura da economia, iniciado no governo Collor, que fez com que as empresas brasileiras fossem submetidas a uma concorrência mais intensa.

As pequenas e médias empresas - assim como as grandes - que souberam detectar as necessidades de implementar mudanças, ou que resolveram investir em métodos e processos destinados a elevar a eficiência operacional, aproveitaram a oportunidade. Para aquelas que já enfrentavam dificuldades em razão de inadequações operacionais ou administrativas, o acirramento da concorrência, principalmente com o processo de globalização, expôs as limitações em mudar rapidamente o foco de atuação e adequar-se ao novo cenário de competição, provocando desequilíbrios financeiros e posterior insolvência.

O faturamento do comércio e dos serviços foi favorecido no primeiro ciclo do Plano Real; situação contrária à verificada na indústria, penalizada pelo grande volume de importações de produtos manufaturados, devido a redução das taxas alfandegárias e a apreciação cambial. De 1994 a 1996 as vendas dos três setores analisados cresceram 35,6% e foi o período de maior crescimento dos 10 anos do Plano Real.

Neste período a geração de caixa das empresas, medida pelo Ebitda, apresentou queda causada principalmente pela redução da inflação, que camuflava a ineficiência da gestão. Observando a lucratividade, nota-se um grande crescimento em 1994, em função dos aumentos nos preços; forte queda em 1995, em função da elevada inadimplência; e retorno do lucro em 1996, embora em patamares bem menores.

O segundo ciclo (1997-1999) foi caracterizado pelas crises financeiras dos países do Sudeste asiático, pela moratória da Rússia, elevação das taxas de juros, agravamento das contas externas, obrigando o país a fazer o Acordo Preventivo com o FMI, e pela mudança do regime cambial, com adoção do câmbio flutuante.

Este cenário adverso prejudicou o faturamento das pequenas e médias empresas que cresceu 5,4% no período, ante os 35,6% do ciclo anterior. O comércio e a indústria cresceram, respectivamente, somente 3,5% e 3,4% nos 3 anos deste ciclo, ante 48% e 21,5% do ciclo anterior. O setor de serviços, mesmo tendo crescido 10,1% nesse ciclo, ainda ficou muito abaixo dos 40,9% do ciclo anterior. Em 1997 e 1998 o setor cresceu 8,8% e 8,5%, respectivamente, puxado principalmente pelo segmento da construção civil. Em 1999, com queda de 6,7%, a paralisação de inúmeras obras públicas e a elevação das taxas de juros neutralizaram parte do crescimento obtido nos anos anteriores, contribuindo para a obtenção deste resultado menor no ciclo.

O ano 2000 foi marcado pela excelente dinâmica da economia brasileira caracterizada pelo bom desempenho das exportações, continuidade das expectativas positivas dos consumidores, melhora do nível de emprego, redução das taxas de juros, queda da inadimplência e maior volume de crédito concedido, fatores que garantiram o aumento dos negócios nos três setores. O impacto no desempenho das pequenas e médias empresas foi direto, refletindo-se em crescimento do faturamento (3,7% no ano), da geração de caixa, medida pelo Ebitda, e no maior patamar da lucratividade, que passou de 1,5% para 2% do faturamento. Impulsionado pelo maior volume de negócios, o endividamento passou do patamar de 100% para 124%, em relação do patrimônio líquido.

O terceiro ciclo (2001-2003) foi caracterizado pela menor taxa de crescimento no faturamento das pequenas e médias empresas, quando comparada aos outros ciclos, tendo evoluído 1,4% no período, em razão dos seguintes fatores: racionamento de energia elétrica, crise financeira da Argentina, elevação da taxa de câmbio, desaceleração da economia mundial, menor nível de atividade econômica, perda de poder aquisitivo da população, alto índice de desemprego, restrições creditícias, incertezas geradas pela eleição presidencial e altas taxas de juros.

No que se refere a resultados, o melhor controle dos custos e despesas operacionais contribuiu para uma discreta elevação no nível da geração de caixa, medida pelo Ebitda, que se refletiu numa elevação da rentabilidade das pequenas e médias empresas. Esta rentabilidade de 3,3% do faturamento, obtida em 2003, só é menor que os 5% obtidos em 1994 no início do Plano Real. A elevação dos níveis de endividamento bancário, que passou do patamar de 31% para 39% do patrimônio líquido, não impactou os resultados, em função da redução das taxas de juros no ano.

Para os técnicos da Serasa, a menor utilização de recursos do sistema financeiro pelas pequenas e médias empresas foi um dos fatores importantes que contribuíram para a limitação dos negócios nos últimos 10 anos. O fato de o desempenho das maiores empresas ter sido melhor, em grande parte, pode ser explicado pela sua estrutura de capitais, cuja maior alavancagem, fruto do acesso a linhas de crédito com custos mais acessíveis, é a base para expandir negócios. O grande desafio é encontrar caminhos para que as pequenas e médias empresas, responsáveis pela maior parte dos empregos gerados no Brasil, possam ter acesso a linhas de crédito com custos mais acessíveis.

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