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Uma vez a cada meio século…

Como indica o título, citando Alan Greenspan, tentaremos aprofundar um fenômeno que ocorre duas vezes a cada século. Neste caso, é um intervalo de 80 anos, tomando a crise de 1930 como registro anterior.

Durante o ano de 2006, o déficit de conta corrente dos EUA chegou a 6% do PIB. Entre os anos 2000 e 2008, o país recebeu mais de US$ 5.7 bilhões do exterior para serem investidos, o que equivale a mais de 40% do seu PIB de 2007. No mesmo período, a Grã-Bretanha e a Irlanda absorveram quase um quinto do seu PIB de 2007, e a Espanha, um elevado 50%. O sistema financeiro tinha o trabalho de reciclar o dinheiro com os tomadores de crédito. Inevitavelmente, o crédito ficou mais barato, e as poupanças caíram. Nos EUA, o nível de poupança estava perto dos 10% da receita disponível nos anos 70, caindo até 1% após 2005.

Isso determinou, nos EUA, que o negócio bancário tivesse margens cada vez menores e fosse, por isso, cada vez mais tentador, fazendo com que seus participantes assumissem maiores riscos, isto é, cobrassem mais juros, o que fez com que surgisse um tipo de cliente que eles chamam de "ninja": "no income, no job, no assets". Aumentou, assim, extraordinariamente o volume de operações, que chegaram a financiar 100% ou mais das propriedades. Surgiram também as conhecidas propostas-fantasmas (os créditos eram pedidos quase sem preencher propostas ou, de outro modo, tudo era meramente declarativo). Esse tipo de hipoteca recebeu o nome de subprime.

Depois, os bancos realizavam securitizações, isto é, reuniam as hipotecas prime e subprime em pacotes chamados Mortgage Backed Securities (MBS), ou seja, títulos cobertos por hipotecas, vendendo-os a entidades que eles mesmos criavam, chamadas trusts ou fundos (os que não precisam consolidar seus balanços com os dos bancos).

Como esses MBS, especialmente os que tinham pior classificação (BBB, BB etc.), eram vendidos? Via reclassificações em novas escalas, reordenando de maior a menor a probabilidade de falta de pagamento. O resultado é que passamos de uma classificação MBS de BB a um novo CDO (Collateralized Debt Obligations), com uma classificação AAA. Depois, acrescentou-se a isso outro invento chamado Synthetics CDO, o qual repete o processo anterior.

O que aconteceu no começo de 2007? Os preços dos imóveis nos EUA sofreram uma grande queda, e muitos ninjas decidiram que estavam pagando mais do que valiam as suas propriedades naquele momento. Então, eles ‘devolveram as chaves das casas aos bancos’. Um fato que dificulta muito o saneamento do sistema financeiro é a impossibilidade de identificar cada fração de hipoteca subprime garantida.

E agora, o que acontecerá? O que podemos esperar em relação ao cenário econômico para os próximos dois anos? Que consequências de longo prazo haverá na história do pensamento econômico? Em relação ao ano de 2009, existe uma queda do PIB na região do Euro de 1,9%, de 1,7% para Grã-Bretanha, e de 1,2% nos EUA, chegando ao piso da recessão entre o segundo e o quarto trimestre para os países centrais em geral, momento a partir do qual a recuperação começará. Os mercados emergentes registrarão crescimento, ainda que com um ritmo muito menor do que tinham demonstrado. Aqui, é necessário fazer distinções entre as diferentes regiões e os países que compõem esta categoria: as economias asiáticas serão aquelas com melhor desempenho, enquanto os emergentes europeus enfrentarão sérios desafios. A América Latina ficará entre ambas as realidades, passando por várias situações. As economias que tiveram uma férrea disciplina fiscal durante a fase expansiva, como o Chile, estarão em uma situação saudável para enfrentar ‘o momento da verdade’ quando a crise tiver chegado completamente à região, enquanto aquelas que não foram tão ‘frugais’, como a Argentina e a Venezuela, terão a sua sustentabilidade muito comprometida. Em relação às perspectivas de longo prazo, podemos supor que as regras do mercado financeiro mudarão. Certos fatores – tais como a comprovação de que Basiléia II pode ser pró-cíclico (dando lugar a fases de boom e bust), ou as classificadoras de risco (por exemplo, S&P) – podem prejudicar os canais de crédito (não levando em conta os seus avançados sistemas de classificação), dando origem à necessidade de repensar ou revalidar as regras. Essas mudanças da estrutura legal implicariam alterações significativas na topologia do sistema financeiro. Não seria já questão de modificações setoriais como as implicadas pela Lei Sarbanes-Oxley Act, no ano de 2002, que surgiu como resposta a um crescente número de escândalos financeiros corporativos (Enron, WorldCom, Adelphia e Global Crossing). Dada a magnitude da crise atual, os enfoques encaminham-se às entranhas do sistema financeiro como o conhecemos, com Alan Greenspan reconhecendo que novas regulações que exijam maiores reservas seriam bem-vindas. Trata-se de um capítulo a parte para os mercados de títulos, nos quais já se poderia assistir a uma antecipação da recuperação econômica esperada a partir de 2010, embora a volatilidade durante o ano e as notícias pouco alentadoras sobre os principais indicadores macroeconômicos continuassem.

Nesse contexto, as instituições financeiras assistem a um panorama sumamente complexo, no qual a mora cresce, dando lugar a políticas de fortalecimento de cobranças, enquanto a liquidez sistêmica, junto com uma grande incerteza (da qual, por sua vez, advém essa liquidez), cria critérios de originação extremamente restritivos. Adicionalmente, as modificações esperadas para a estrutura legal antes mencionada implicarão muito mais atenção sobre a gestão do risco (essencialmente creditício e de mercado) por parte das instituições financeiras, originando a incorporação de conhecimento e ferramentas em concordância com as circunstâncias. Esse cenário é uma oportunidade única para nossa empresa, já que a urgência do mercado aponta justamente para fatores pelos quais somos reconhecidos: conhecimento, investigação e tecnologia de fronteira.

Baixando do macro ao micro, e voltando à pergunta ‘O que vem depois?’, poderíamos responder como um bom médico, analisando os sintomas do paciente (um país, um mercado, setor etc.) e baseando-se nos resultados de tais variáveis para fazer o diagnóstico. Com base nessa analogia, concluímos que a Experian tem grande possibilidade de explorar a análise das variáveis macroeconômicas ou de conjuntura relevante para certo país e certo mercado, a fim de realizar estimativas econômicas que permitam ajustar os resultados obtidos mediante métodos tradicionais, como aqueles envolvidos nos scorecards. Eles são muito úteis em contextos nos quais é correto supor que o futuro será semelhante ao passado. No entanto, em situações de grande incerteza e estresse econômico como o presente, estas requereriam ser complementadas com outras técnicas. Nesse sentido, os próximos passos a seguir estariam focados na investigação das relações existentes entre diferentes variáveis macroeconômicas e as variáveis próprias de nossos clientes (mora, produção etc.), utilizadas também na avaliação de cenários extremos (stress testing) e otimização de estratégias. Entendemos que esse enfoque constitui um valor adicionado importante para os nossos clientes. As ferramentas estão ao nosso alcance. Mãos à obra.

Emiliano Delfau e Luciano Scalise
Experian Decision Analytics
Argentina

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