Relações afetivas para
melhoria da qualidade
de vida
Milton de Oliveira
 
 


“Nascemos com emoção. Canalizamos essa emoção para as relações
de afeto e, a partir daí, estruturamos nossa personalidade,
nossa maneira de ser, nossa razão.”

Estamos vivendo momentos paradoxais na sociedade. A qualidade de vida não acompanhou os avanços extraordinários da ciência e da tecnologia. Quando olhamos os indicadores sociais notamos que eles são os piores possíveis: aumento das drogas, do alcoolismo, do estresse e da violência, entre outros. Muito do que acreditávamos como sendo verdade perdeu sua credibilidade no decorrer do tempo. Mas por que tudo mudou?

Fomos muito influenciados por um filósofo francês chamado René Descartes, que é o pai da ciência ocidental. Ele estudava a natureza e o corpo humano. Segundo Descartes, o corpo humano é uma máquina. Por isso nós fomos estudados durante muitos anos como simples máquinas. Depois chegou um grande físico, Newton, que pegou o modelo de Descartes e o matematizou. Dessa forma, a ciência teve um avanço fantástico. Porém, esse avanço foi muito ruim para a psicologia.

Acreditávamos que se compreendêssemos o passado iríamos entender o futuro. Mas já se sabe que isso é um equívoco. Quando se compreende o passado, no máximo, entende-se o presente. Por isso, até mesmo os testes psicológicos caíram em desuso. Alguns indicadores podem prever uns poucos comportamentos, mas o homem é um ser imprevisível e indeterminado.

Aprender a aprender

Precisamos esquecer algumas coisas que aprendemos para realizar novas aprendizagens. Até algum tempo atrás entendíamos muito pouco sobre o funcionamento da inteligência, da personalidade.

Hoje sabemos que absolutamente tudo na vida é evolução. O universo evolui o tempo todo. Essa evolução começou com a transformação da energia orgânica que se materializou no ser humano. Desde então, não paramos de evoluir. Apesar dessa evolução, estamos nos desumanizando e perdendo a verdadeira importância das emoções, as quais sempre foram muito mal compreendidas.

Nós definimos mal o que é emoção. Normalmente, a relacionamos com o instante de uma reação brusca. Mas, na verdade, temos emoção em nosso corpo 24 horas por dia. Do mesmo modo que não podemos parar de respirar, que não podemos parar a circulação sanguínea, não podemos parar de nos emocionar. A emoção é energia básica da vida.

Nosso primeiro erro é traduzir as emoções como sensações bruscas. Elas existem, mas somente quando ocorre uma quebra de harmonia. Segundo especialistas, levamos cerca de 20 milésimos de segundo para alterar nosso estado emocional. Isso significa alteração dos batimentos cardíacos, do fluxo sangüíneo, da respiração, da composição hídrica da pele, interrupção da digestão e mudança da composição química do sistema imunológico. Todo esse processo ocorre para preservar a vida.

No aspecto da educação, somos muito maltreinados quando o assunto é emoção. Como exemplo podemos dizer que, apesar de a grande maioria das pessoas gostar de crianças alegres, não raro nos pegamos reprimindo, justamente, a alegria dos pequenos. “Pára com esse barulho!” e “vá brincar lá fora” são frases comuns perante crianças que estão apenas extravasando sua felicidade. Com certeza, os gritos dos pais, dos educadores serão determinantes para a criação do sistema nervoso dessas crianças. Ao invés de reprimir a emoção nas crianças, é necessário estimulá-la.

Além disso, meninos são educados para não terem certas emoções. “Homem que é homem não tem medo, não tem afetividade”. E crescem acreditando nisso. Mais tarde, já casados, deparam-se com as esposas lhes perguntando: “Você ainda me ama?” Mas, na maioria dos casos, não respondem. É como se, respondendo, perdessem poder. Há uma frase do escritor Millôr Fernandes que diz: “Homem que é homem não toma mel, come a abelha”.

Estímulos

Outra falsa crença dizia que o sistema nervoso é estático, que as células nervosas não se reproduzem, não se regeneram e que, com a idade, morrem e desenvolve-se um processo de esclerose. Mas tudo isso é absolutamente falso.

Hoje se sabe que a célula nervosa é muito mais sensível, mas que ela se regenera, multiplica-se. Para os antigos estudiosos, o sistema nervoso se desenvolvia até, aproximadamente, os sete anos de idade. Mas, hoje, já está comprovado que enquanto a massa corpórea aumenta, também há desenvolvimento do sistema nervoso. Sabe-se que, ao nascermos, nossa estrutura neurológica ainda está se definindo e existem regiões do cérebro incipientes. Quando bem estimulados na infância, teremos maior capacidade emocional, pois nascemos com um potencial que precisa ser incitado para nos tornarmos inteligentes. Um exemplo são as crianças com Síndrome de Down. Elas têm baixa capacidade de aprendizado, mas, se bem treinadas, conseguem alcançar um grau de inteligência razoável.

Descartes dizia que um grande tomador de decisões não pode ter emoções porque elas prejudicam a objetividade. Estava errado. Hoje se sabe que pessoas com algum tipo de lesão na região frontal, subcortical do cérebro, mas com preservação do córtex, não perdem a memória, mas não sentem emoção. Porém, ao invés de sábias para tomar decisões, elas se desorientam totalmente, perdem o raciocínio, a criatividade, a intuição.

Quanto mais você desenvolve sua sensibilidade, mais desenvolve a inteligência.

É comum as pessoas irem buscar na análise grandes eventos do passado que tenham modificado suas vidas e que possam auxiliá-las na procura pela qualidade de vida. Mas a maioria não teve grandes traumatismos e sim pequenos eventos que podem ter provocado grandes transformações. Nossa vida não é feita de grandes eventos. Podemos contar nos dedos quais são eles: o casamento, a morte, uma separação, o nascimento de um filho. Portanto, a vida é feita de cotidiano. Aprender a viver bem, a ter qualidade de vida não é nenhuma tarefa para super-homem. Está ao alcance de qualquer um.

Aprendemos que temos que entender o passado para mudar o presente e sermos felizes. Mas a felicidade é construída, é buscada. E buscada no futuro. Temos que conhecer nosso passado muito rapidamente e mudar o presente em algumas vivências. Só assim continuaremos evoluindo. É fato que uma pessoa idosa não tem a capacidade de evolução neurológica de uma criança, mas ela continua em processo de aprendizagem.

Quanto mais emoções
positivas, mais saúde

Para termos qualidade de vida, precisamos mudar nossa concepção sobre a emoção. Segundo a concepção clássica, a emoção deve ser equilibrada. Equilíbrio aqui significa contenção. Mas se tivermos muita emoção contida não evoluímos. Por isso devemos reforçar a criatividade, a sensação de bem-estar, sempre tendo em vista que quanto maior o número de emoções positivas, mais saudáveis seremos.

Há crianças que não desenvolvem o afeto, são autistas. O autismo é um dos casos mais tristes da psiquiatria. A criança autista não consegue estabelecer uma relação afetiva, não consegue entrar em contato com suas emoções e, por isso, ela não se desenvolve, vivendo por poucos anos, porque sem amor nós não vivemos.

É o amor que nos faz diferentes dos demais animais, além da capacidade de raciocínio. A primeira associação que fazemos quando falamos de amor é a figura materna. Nós não sabemos explicar porque gostamos de alguém, mas podemos afirmar que determinada pessoa toca profundamente nossa emoção.

Vivemos em uma sociedade em que a emoção não é estimulada positivamente. Promove-se muito mais a violência.

Nós nascemos com emoção, canalizamos esta emoção para as relações de afeto e, a partir daí, estruturamos nossa personalidade, nossa maneira de ser, nossa razão E, então, começam os nossos problemas. Isto porque nós vivemos em uma sociedade em que a emoção não é estimulada positivamente. Promove-se muito mais a violência e a agressividade. É notável como existe uma quantidade maior de filmes de violência, de terror, de suspense do que sobre afetividade. E o afeto é fruto da emoção. Quando não há emoções positivas, existe uma vida pobre, de frustrações, de rancores.

Já a relação amorosa muda nosso sistema metabólico. Quanto maior a nossa experiência com relações amorosas positivas, mais saúde teremos e viveremos por mais tempo.

A paixão é uma dor que só nós, seres humanos, sentimos. E pior do que dor de parto, renal ou qualquer outra, é a dor da perda da paixão. Na morte da paixão, temos de assassinar o objeto amado dentro de nós. Quando morre alguém querido, é como se a vida fosse embora. Mas, mesmo assim, é mais fácil nos esquecermos de quem morre do que de uma paixão.

 

     
 
 
 
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