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Como treinar sua memória para aumentar seu poder de aprendizagem Ricardo Melo |
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Podemos começar contando uma história, que tem um eco direto em nossa memória. Acredita-se que há cerca de 2.500 anos havia em uma província, que mais tarde seria conhecida como China, um indivíduo considerado muito sábio. Era um senhor, com cerca de 65 anos, muito respeitado pela comunidade local. As pessoas iam até ele para pedir conselhos. Era uma espécie de juiz, pela autoridade moral que havia conquistado. Mas, ao contrário de outros membros de sua província, ele não tinha bens materiais, a não ser um simples e bonito cavalo. E o senhor cuidava do animal como se cuidasse do próprio filho. Até que um dia o cavalo sumiu. Todos ficaram muito preocupados, suspeitaram que ele não agüentaria a frustração e poderia até morrer. Então vários membros da comunidade, em comitiva, seguiram para o casebre onde o senhor morava para poder lhe prestar os pêsames. Ao chegar lá, foram recebidos pelo homem, que não se mostrava abalado com a falta do animal. As pessoas ficaram confusas. Que azar pior poderia ter um pobre velho, perdendo seu único e estimado bem? Uma semana depois veio a resposta. O cavalo reapareceu com uma égua prenha. Ou seja, em menos de uma semana, este senhor mais que dobrou seus bens. Então todos os indivíduos da comunidade foram lhe dar os parabéns, dizendo o quão sábio ele havia sido por não ter se desesperado diante daquela situação. Mas ao receber as congratulações, o homem novamente não se abalou. Algum tempo depois, o filho do tal senhor resolveu cavalgar com a égua recém chegada. Mas, ao se assustar com uma cobra, ela derrubou o menino, que teve ambas as pernas quebradas. Novamente os habitantes do lugar foram à casa do sábio: “Que azar seu filho ter sido derrubado pelo animal”. Mas o senhor não demonstrou reação. A comunidade ficou indignada com sua falta de consideração diante de sua solidariedade. A guerra chegou naquela região. Era costume as mulheres e as crianças também participarem dos confrontos. Os únicos poupados eram os idosos, que ficavam tomando conta das casas, e os doentes. Dessa forma, o garoto que estava com as pernas quebradas, não foi convocado. Mais uma vez os vizinhos da comunidade foram até a casa do homem e comentaram sobre a sorte de seu menino não precisar ir para a guerra. Novamente o sábio foi reticente: “Sorte? Pode ser, pode não ser...” Identidade Social Falar de memória não é só falar de circunstâncias específicas, de memorizar nomes, números de telefone etc., mas de aspectos mais amplos, como aprender a se organizar melhor. O que sabemos hoje sobre a memória humana, deve-se aos últimos 15 anos de estudos e pesquisas científicas realizados, principalmente, na Europa e nos Estados Unidos, nos quais se descobriu muito mais sobre nosso cérebro do que soubemos durante toda a existência humana. Hoje compreendemos desde seu funcionamento até as leis que regem os processos de retenção e de perda de informações. O Brasil também tem dois dos maiores centros de estudos da memória do mundo - um deles em São Paulo, na USP, e outro no Rio Grande do Sul. Antropologicamente falando, a memória serve para que tenhamos identidade social, para que possamos passar pela vida registrando fatos. Mas a memória não é fim. Ela é meio. Nos locais onde há estresse, é comum observarmos pessoas se vangloriando por terem a capacidade de ler um livro rapidamente. Mas, depois de um mês, essas pessoas não irão lembrar-se de qual era a história do tal livro. Isso não é vantagem. Geralmente, as pessoas que agem assim vão buscar no livro um fim e não um meio. Elas se esquecem de que o objetivo deve ser a aprendizagem. Quando alguém for para a faculdade, por exemplo, com o intuito apenas de conseguir um diploma, não terá sua memória acionada para reter informações. Há uma tendência maior de armazenarmos dados somente do que queremos aprender. |
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