Vida da Família e Afetividade

 
 


Começamos falando de pais e irmãos. Dos irmãos, costumamos nos lembrar quando pensamos na disputa pelo espaço no quarto e nas pequenas discussões, e dos pais, pelas reprimendas e pela educação muitas vezes rigorosa. Mas nós ficamos adultos, cada um segue o seu caminho, e nos esquecemos de pais e irmãos. Claro que não adianta ser demagogo. Há amigos que são mais queridos do que irmãos. Ninguém precisa se violentar por isso. Mas acho pouco provável que não tenha prazer em falar com seus pais ou irmãos.

Caso, por algum motivo, em algum momento da sua vida, haja alguma desavença entre você e um de seus familiares, não espere mais nem um dia, nem um mês, nem um ano, para pedir perdão ou perdoar, para resgatar, um minuto que seja, a vida que vocês tiveram. Faça isso hoje mesmo. Pegue o telefone, ligue, pergunte como essa pessoa está. Não é necessário esperar mais tempo para isso.

Filhos. Não há presente maior. Começam a vida chorando e nos tirando o sono. Logo depois não nos dão mais ouvidos. Sempre surpreendentes, acabam assimilando nossos melhores e piores hábitos. Reclamam do mesmo jeito que nós, os pais. Fundamentalmente, o que me chama a atenção nas crianças é essa capacidade de sentir, de refletir, de pensar no futuro e, mais do que isso, de exercer a prática do amor, coisa que nós nos esquecemos ao longo do tempo, por conta da ignorância de nossa maturidade.

Sempre aprendo alguma coisa nova com meus filhos. Eles são minha pós-graduação, meu PhD. É muito fácil uma pessoa se dispor a fazer uma palestra ou escrever sobre um determinado assunto, mas isso só será válido quando vier da experiência, por isso, tudo o que deixo é fruto da vivência.

Com meus filhos aprendi, por exemplo, sobre a qualidade do tempo. Quando eu era um pai residindo na mesma casa, tinha menos qualidade de tempo com meus filhos do que tenho hoje. Outra coisa que aprendi e agora aconselho é: escreva uma carta para cada um de seus filhos no dia do aniversário deles, relatando quem você é, quem ele é, o que está acontecendo naquele momento; ponha estas cartas em um envelope, lacre e entregue todas juntas quando ele fizer 18 anos. Não haverá presente melhor. Eu gostaria de ter recebido. Como não recebi, vou dar.

Uma passagem interessante com meus filhos aconteceu quando estávamos em um supermercado e, enquanto eu fazia compras, eles se afastaram de mim. Depois nós nos encontramos, fomos para casa, terminou o fim de semana, levei-os para a casa da mãe. Chegando lá, um deles contou: “Olha, mãe, conseguimos mais oito Tazos (figurinhas que vêm em pacotes de salgadinhos) neste fim de semana. Só que este aqui eu abri o pacote de salgadinho e peguei”. E falou isso na maior inocência. A mãe explicou que aquilo era errado e ele me ligou chorando: “Olha, papai, eu fiz uma coisa muito errada e prometo que nunca mais vou fazer. Eu abri o pacote de salgadinho e peguei um Tazo”. E ele chorava, chorava... Esperei o próximo fim de semana em que estaria com eles, fomos até o supermercado e acertamos a conta.

Primeira lição: o poder de reconhecer o erro. Reconhecer que, dentro das normas, houve uma falta. Dois: pedir perdão. Três: dizer que não vai mais fazer e sentir no coração que aquilo estava errado. São pequenas lições que ficam.

Quantos pedem desculpas por uma palavra áspera, uma ação mal-praticada? Quantas vezes você feriu seu colega ao lado? Você percebeu, mas preferiu pensar: “Deixa, que vai passar.” Não passa. Fica.

Amigos. Amigos são como cachorros: precisamos levar para dar uma volta de vez em quando, se não eles nos esquecem. Há os amigos, os colegas e os conhecidos. Conhecidos são todos. Colegas são aqueles com os quais compartilhamos algumas coisas. Amigos são poucos. Nós temos alguns amigos no trabalho, na igreja, na academia, no clube de campo, na escola, na faculdade etc. Mas nós só lembramos deles quando precisamos. Perdemos tanto tempo no trânsito, com a TV... por que não usamos um pouco desse tempo para cuidar dos amigos? Para, pelo menos uma vez por semana, ligar para saber se estão bem. Também há a necessidade de se tomar cuidado com os falsos amigos. Quem planta o mal, colhe o mal.

Já sobre o amor, Nietzsche dizia que um casamento pode durar muito tempo, quando você se imaginar conversando, agradavelmente, com a pessoa que está ao seu lado, daqui a 25 anos.

A estória das “Mil e uma noites” é um bom exemplo de vida afetiva. Primeiro, porque falar em “mil” lembra-nos o infinito. Jorge Luis Borges dizia isso. Então, mil e uma noites significa acrescentar uma noite ao infinito.

Mas a fábula conta a estória de um sultão que amava muito uma de suas esposas, mas descobriu-se traído por ela e que por isso, tomou uma decisão enérgica, mandando decapitá-la. O sultão também decidiu desposar as mulheres mais belas do Reino e matá-las após a noite de núpcias, acreditando que, desse modo, preservaria o amor e garantiria que jamais seria traído novamente. E assim foi. Casava-se com uma jovem do Reino e, na noite seguinte, a esposa era morta. Um belo dia, Sherazade disse para seu pai, que era o algoz das esposas, que desejava casar-se com o sultão. Seu pai lhe disse que não poderia permitir essa união e contou-lhe o que o sultão fazia com as moças no dia seguinte ao casamento. Mas ela insistiu e casou-se com o sultão. Depois da noite de núpcias, a nova esposa começou a contar histórias para o marido e ele decidiu adiar sua morte por mais um dia para poder ouvir mais histórias. Dessa forma, ela foi seduzindo-o e sua morte, sempre adiada. É o dom da palavra. Curioso é que a fábula não fala da beleza de Sherazade mas, sim, sobre sua cultura.

Notamos, a partir de uma crônica de Rubem Alves, que relacionamentos amorosos podem ser de dois tipos:

Do tipo jogo de tênis: é um jogo duro, com dois oponentes, duas raquetes, uma bolinha e que termina com a vitória de um e a derrota de outro.

Do tipo frescobol: também são duas raquetes e uma única bolinha, mas duas pessoas e não dois oponentes. Ambos jogam para manter a bolinha no ar. A má jogada de um será corrigida pelo outro. A bolinha, no frescobol, é como o sonho, ninguém quer derrubar. Já no tênis, quando um levanta a bola, o outro dá a cortada.

“Não deixe que seu passado decida quem você é.
Mas deixe-o fazer parte da pessoa que você será.”
(Do filme “Casamento Grego”)

Existem pessoas que ficam focadas só em um pilar das sete vidas: só se dedicam à vida profissional ou só à vida amorosa. Quando existe conhecimento, procuramos focar a vida nos sete pilares, nas sete vidas. Assim, a tendência é sermos mais fortes.

 

     
 
 
 
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