| O pensamento |
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Quem aprendeu, por exemplo, análise sintática? Tabela periódica de elementos? Um ou outro. Quem é que decorou todos os afluentes da margem esquerda do rio São Francisco? Para que serve? Para nada. Então não queremos estudar porque não percebemos o significado. E nossa mãe fala brava: “Vai estudar, menino”! “Mas preciso saber esse troço para quê?” E a própria mãe mata a charada: “Sabe porque você tem de estudar? Porque isso vai cair na prova. Se você não for bem na prova, reprova.” Então você pensa: Se eu preciso saber isso para a prova, eu preciso saber até o dia da prova. Portanto fomos educados por um modelo que nos deixava à prova. Até porque, no Brasil, nós somos divididos em pessoas que têm sucesso e pessoas que não têm sucesso por conta de uma prova. Qual? O vestibular. A intenção única da educação deve ser ensinar a pensar. Já o treinamento visa desenvolver uma habilidade específica. Você treina alguém para dirigir trator, para mexer em computador, ou até para atender telefone num call center. Pensar é outra coisa: é ter crítica, ser criativo, é apresentar novas soluções para velhos problemas. Como é que aprendemos a pensar? Basicamente, para investir na chamada elevação do pensamento. E como fazemos isso? Viajando por outras áreas que não aquelas em que estamos trabalhando objetivamente. Tudo isso serve para nos fazer pensar. Entender arte, filosofia, também ajuda. No livro O mundo de Sofia, por exemplo, conta-se a construção do pensamento ocidental moderno, em forma de romance, de Sócrates para cá. É muito curioso e gostoso de ler. Quem já leu, leia de novo. Você vê coisas novas quando lê novamente. Entender a história também é importante. Os nossos políticos, por exemplo, não deveriam cometer erros que já foram cometidos por outros. Até Hitler, que invadiu a Rússia, cometeu o mesmo erro que Napoleão tinha cometido. Se ele entendesse um pouco mais de história não teria feito isso. Precisamos entender de história, de política, de literatura e assim por diante. Todos corremos o risco dos perigos do chamado foco alienante. O problema é que, como a competitividade é muito grande, as empresas olham para nós e dizem assim: “Você tem de pôr muita energia em seu trabalho. Você tem de ser focado.” Claro, se você foca alguma coisa, põe muita energia, tem mais chance de aquilo dar certo. Mas, às vezes, colocamos toda nossa energia em um determinado foco, no objeto do nosso trabalho, e esquecemos de outras áreas do conhecimento que estão ao entorno. Caso nós tivéssemos conhecimento dessas outras áreas, elas nos ajudariam a resolver os problemas. Cuidado: ser focado é bom, mas ser exageradamente focado nos conduz à alienação e a pessoa alienada tem menos percepção. Ao ter menos percepção, terá mais dificuldade de adaptação, além de se tornar menos interessante. Vamos falar um pouco sobre a realidade. O que é a realidade? Um filósofo espanhol, chamado Ortega y Gasset, disse que o homem não existe sozinho. O homem existe em sua relação com seu mundo, em sua circunstância. Somos nós e somos aquilo que fazemos. Eu nunca fui apresentado assim: “Este aqui é o Eugênio, um cara legal”. Sempre sou apresentado desta forma: “Este aqui é o Eugênio, o professor, o escritor, o consultor, o palestrante”. Sempre aparecemos por aquilo que fazemos. O homem depende de sua circunstância até para ser reconhecido. Mas interagimos com essa circunstância. Existem duas correntes de filosofia opostas, mas que são complementares. Uma diz assim: o homem é fruto do meio. Essa chama-se determinista. Mas existe a corrente possibilista, que diz o contrário: o meio é fruto do homem. Qual das duas está certa? As duas estão. Porque nós interagimos com as nossas circunstâncias, com nosso meio. O homem constrói sua circunstância. Vamos revisar: cada um de nós tem uma realidade, que depende da interação do ser humano com seu ambiente por meio de sua percepção, o que define o seu grau de lucidez. As pessoas têm diferentes percepções da realidade. Não existem duas pessoas com impressões digitais iguais; não temos duas íris iguais ou, sequer, dois eletrocardiogramas com o mesmo traçado. Igualmente não existem duas pessoas com a mesma visão do mundo. Dessa forma, o mesmo problema é visto por duas pessoas de maneira diferente. A mesma pessoa, aliás, tem variações de percepção de acordo com as circunstâncias. Um problema que tenha hoje, amanhã pode deixar de ser. Algo que não valorizava hoje, amanhã passa a valorizar. O entendimento das diferenças entre as pessoas também favorece muito a comunicação, os relacionamentos e também o chamado trabalho em equipe. Tudo trabalhamos em equipe. E vejo, às vezes, nas empresas, uma pessoa dizer: “Você está errado”. “Por que eu estou errado?” “Porque você não pensa como eu.” “E eu posso dizer exatamente a mesma coisa.” “Por que você brigou com fulano”? “Porque ele tem muita idiossincrasia.” Sabe o que é idiossincrasia? É a maneira pessoal de ver o mundo. Nós temos idiossincrasias e é bom que tenhamos. Uma equipe de cirurgia, por exemplo, não é uma equipe de cirurgiões. Só há um cirurgião. O outro é anestesista, outro é auxiliar. São pessoas diferentes na técnica e também na percepção. Temos várias visões. Eu posso ter uma visão objetiva, subjetiva, emotiva, analítica, criativa e até transgressora. Um exemplo rápido: um leão come uma zebra na selva africana. Acontece todo dia. Qual é a visão temos disso? Bom, depende. A visão do leão é objetiva: está com fome e tem uma zebra na frente dele. Qual é a visão da zebra? Emotiva. Está morrendo de medo do leão. Qual é a visão de um fotógrafo da National Geographic que está ali tirando fotografia? Subjetiva, porque ele fala: “Não vou me meter”. Além disso, o fato é bom e é ruim. É bom para o leão e para a zebra é ruim. Depende do ângulo. Agora, qual é a visão de cientista, de um zoólogo? Uma visão mais analítica. Para a zebra é ruim ser comida pelo leão, mas vamos analisar mais a fundo. Pode ser que seja ruim para aquela zebra. Mas para as demais é ótimo. Se os leões param de comer as zebras vai faltar capim na África. E, além disso, quando um leão come uma zebra, qual é a zebra que ele come, a mais rápida ou a mais lenta? A mais lenta. Então isso impede que as mais lentas tenham filhotes. Os filhotes serão só das mais rápidas e isso faz com que a espécie evolua. Então é ótimo para a espécie da zebras que uma seja comida. Duro é convencer aquela zebra disso. A visão daquela zebra é emotiva, não é analítica. Qual é a visão criativa dessa situação? É uma visão do Walt Disney. Lembram do filme O rei leão? O que faz a hiena no filme? A hiena faz amizade com a zebra. E diz para a zebra: “Você fica aqui, nesse canto, que você estará protegida.“ E depois avisa o leão onde a zebra está. Então o leão mata a zebra e dá um pedaço para a hiena. Isso é criatividade. E o que seria uma visão transgressora? Um belo dia, as zebras acordam e dizem: “Vamos virar carnívoras. Vamos comer os leões.” É uma transgressão, uma coisa radicalmente diferente do que se fazia até então. Vocês viram que a arte nos ensina a pensar. Quando eu estava saindo da exposição de Picasso, em São Paulo, vi uma frase sua na parede: “A arte não é a verdade. A arte é uma mentira que me permite enxergar a verdade.” Essas visões da realidade, os próprios movimentos culturais têm. Um quadro realista oferece a visão objetiva. O impressionismo, o expressionismo, o cubismo, o abstracionismo, o surrealismo nada mais são do que visões da realidade. Por exemplo: um quadro realista parece uma fotografia, como os de Rembrandt. Já no impressionismo, de Monet, é diferente porque ele não lembra, exatamente, uma fotografia porque não usa linha, só luz e sombra. Inclusive este pintor tinha uma curiosidade: pintava uma varanda de manhã e a mesma à tarde. É outra visão. As sombras mudam, a cor do céu é outra, a do mar também. Então, muda a visão da realidade de acordo com o momento. O impressionismo capta isso: é a impressão da luz sobre a retina. Uma outra corrente de pintores criou o expressionismo, que só lida com a emoção. O cubismo, no caso de Picasso, fragmenta a imagem em partes menores. Agora vamos para Mabe, que pintou, por exemplo, Sonho de Sol. Ninguém consegue enxergar o sonho de sol na obra deste artista. Mas se pudéssemos conversar com Mabe – ele já é falecido – seria capaz de nos explicar isso. E, por último, o surrealismo, de Salvador Dali. Surrealismo é quando você pinta com o inconsciente. Tira o consciente e fica no inconsciente. Nós não temos sonhos em que tudo está distorcido ao redor? Porque sonhamos com o inconsciente. Nós nos comportamos com o inconsciente. Oitenta por cento do nosso comportamento deve-se ao inconsciente. Nós podemos ter várias visões da realidade. A arte nos ensina isso. As quatro bases principais da construção do nosso pensamento são: a arte, a ciência, a filosofia e a religião. Tudo o que nós pensamos, a maneira como pensamos, está ligada a um destes quatro elementos. Eu não consigo mais ficar uma semana sem computador. Isso é ciência. Eu já penso o mundo levando em conta o computador. A arte: o que é o Renascimento? Nós saímos da Idade Média e entramos em um período que o homem passou a ser valorizado de novo. O que provocou isso? A arte. Porque Leonardo da Vinci começou a colocar o homem em seus quadros. Até então a arte da Idade Média era toda dedicada à Igreja. Michelângelo, mesmo pintando na Igreja, pintava o homem nu, igual a Deus. Tintoretto, Raphael, Da Vinci... a arte estimulou essa posição de um tipo de pensamento. Portanto, não podemos ficar limitados só ao nosso foco de trabalho. Precisamos abrir nossos horizontes. Esta atitude vai favorecer, inclusive, o trabalho. Mas que história é essa de busca da excelência? As empresas, de modo geral, estão buscando algo chamado Programa de Qualidade. Claro, temos que ser muito bons, caso contrário a gente não consegue concorrer no mercado de hoje, altamente competitivo. Então nós implantamos Programas de Qualidade Total. Só que o Programa de Qualidade Total nada mais é do que uma medida administrativa. Para tocar no coração das pessoas, em seus espíritos, é necessário que elas se comprometam com a qualidade. E isso irá ocorrer quando perceberem que, ao buscar excelência, elas estão favorecendo a si mesmas e não apenas aos demais. A mandala que a gente constrói: coisas como a função do treinamento, a preocupação com detalhes, a ética, o comprometimento e, inclusive, a espiritualidade. Tudo isso está ligado com a busca da excelência. A propósito das Olimpíadas 2004, realizadas na Grécia, foram mostradas imagens de atrizes vestidas de sacerdotisas gregas, que fizeram uma cerimônia na base do Monte Olimpo, abrindo o calendário oficial das Olimpíadas de Atenas. E ali foram recuperados, foram recordados alguns dos principais ideais olímpicos. Eu vou mostrar para vocês só três. O primeiro, diziam os gregos antigos, é a vida humana, que justiça-se pela busca da excelência. Ou seja, todos os seres humanos, passamos a nossa vida tentando entender por que existimos. Todo mundo aqui já pensou isso: por que eu nasci? Por que eu estou nesse mundo? Qual é o legado que vou deixar quando for embora? Como é que as pessoas vão lembrar de mim? Essas são preocupações exclusivamente humanas. Bicho não pensa isso. A única preocupação dos bichos é manterem-se vivos. Continuar vivendo. Só. Nós, não. Nós queremos viver, mas queremos deixar um legado. Por isso o homem atravessa a vida construindo coisas, de preferência, ligadas a quatro valores: coisas boas; coisas verdadeiras; coisas úteis; coisas belas. Nós queremos fazer ciência, arte, poesia, música, queremos construir a nossa casa, queremos arquitetura. Sempre queremos ser melhores. A humanidade, como um todo, está sempre melhorando. Cada um de nós aqui quer a reprodução da humanidade. E tem de ser. Temos que procurar fazer as coisas cada vez melhores. Hoje melhor do que ontem. Amanhã melhor do que hoje. Existe uma frase de um poeta irlandês, chamado William Buttler Yeats, que diz assim: “É a mim que eu aprimoro ao aperfeiçoar a minha obra”. Olha que coisa linda: somos reconhecidos por aquilo que fazemos. Quando fazemos cada vez melhor aquilo que fazemos estamos, na prática, melhorando a nós. Faça muito bem feito aquilo que faz, não para dar satisfação aos outros, mas para dar satisfação para você. Esta é uma visão aristotélica da excelência. Outra: o homem só evolui quando ultrapassa seus limites, óbvio. Se você fizer sempre a mesma coisa que tem feito até agora, irá continuar obtendo exatamente os mesmos resultados. Só vai evoluir se empurrar os seus limites para a frente. Para isso terá de conhecer seus próprios limites. Por isso a importância do auto-conhecimento, do qual falei no início. Veja que curioso: a cada quatro anos acontecem as Olimpíadas. A cada quatro anos recordes são baixados. Sempre tem alguém que corre mais rápido, que salta mais alto, que nada mais depressa, que levanta mais peso. Nós não acreditávamos que era possível nadar mais de 100 metros em menos de um minuto até que um homem chamado Johnny Weissmuller, na década de 30, nadou. Ele que era o Tarzan do cinema. De lá para cá muita gente já realizou a proeza. Dizem que como ele nadava de Tarzan e, na época, não tinha animação, às vezes ele precisava nadar em uma lagoa e a produção soltava um jacaré atrás dele. Foi assim que ele bateu os recordes. Hoje nós estamos nadando 100 metros em menos de 48 segundos. Então, qual é o nosso limite? Nós é que colocamos limites na nossa cabeça. Não os outros. Por último, dizer o que diziam os gregos: a linha que separa o comum do especial é a vontade. A famosa força de vontade da qual falamos tanto. Atenção, um pouco de teoria da vontade: existe uma diferença entre vontade e desejo. Desejo é algo inerente a nossa condição biológica. Os desejos existem para nos manter vivos. Então nós temos, basicamente, três desejos originais: desejo de comer – que nós chamamos de fome; desejo de descansar – que nós chamamos de sono ou preguiça; e o desejo de fazer sexo, que é o instinto da reprodução. Tirando isso, você não deseja mais nada. O resto é vontade. Os senhores se levantam cedinho para trabalhar todo dia por que estão morrendo de desejo? Quem é que já acordou de manhã cedo e disse: “Estou com desejo de fazer meu imposto de renda”? Ninguém faz as coisas porque tem desejo, mas porque tem vontade. E a vontade ocorre onde? No pensamento. “Ah, eu não estou com vontade de voltar a estudar. Vontade de fazer pós-graduação, mestrado...nesta idade em que estou...” “Mas se você fizer você vai ser mais respeitado, vai ganhar mais...” “Então agora fiquei com vontade.” Percebam que isso é uma vontade que surge porque você pensou. Todo desejo que vem do pensamento chama-se vontade. Vontade é um desejo intelectual. Vejam a importância de aprender a pensar. |
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